Espaços urbanos

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Casa 500 em maio de 2018 - Rua Sete de Setembro - Renato F. Thomsen

domingo, 6 de maio de 2018

A casa 500



O destino da casa 500 parece estar selado. Mas antes de virar escombros ela quer contar a sua história. Quando talvez dela não haja mais nada além de fotografias esmaecidas, saibam os habitantes do futuro que um dia a cidade descartou de sua paisagem um legítimo documento histórico.


Casa 500 - Foto João Carlos Alves Mór


15 de abril de 1847: Antônio Vicente da Fontoura, liderança no desfecho da Revolução Farroupilha, de volta a Cachoeira e disposto a refazer a vida depois do longo envolvimento com a Revolução Farroupilha, pediu licença à Câmara Municipal para construir uma casa no terreno de sua propriedade, havido por doação de Manoel José Pereira da Silva, na Travessa de São José, hoje Rua Conde de Porto Alegre.

Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

13 de abril de 1849: a Câmara convocou o arruador para verificar a correção do alinhamento da casa que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto, tomando como parâmetro a casa de Miguel Pereira Simões, situada na mesma quadra, na Travessa de São José.

CM/OF/A-004, fl. 159 - Arquivo Histórico


14 de abril de 1849: o arruador comunicou á Câmara que a casa de Miguel Pereira Simões estava fora do alinhamento em relação à casa de “canto” (esquina) que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto (hoje Sete de Setembro).  

1850: o cadastro dos terrenos de Cachoeira, que ensejou a confecção do primeiro mapa, elaborado por João Martinho Buff, traz o registro do terreno n.º 153, pertencente a Antônio Vicente da Fontoura, situado na Rua do Loreto (atual Sete de Setembro), esquina Travessa de São José (atual Conde de Porto Alegre), com 95 palmos de frente por meia quadra de frente ao fundo. Confrontações: ao Sul, a Travessa de São José; a Oeste, a Rua do Loreto, e a Leste, o terreno n.º 221, dos herdeiros de Miguel Pereira Simões.

CM/S/SE/RCT-005 - Arquivo Histórico

Localização do terreno n.º 153 no mapa de J. Martinho Buff - 1850

O proprietário. Antônio Vicente da Fontoura é sabidamente um dos mais importantes vultos da história de Cachoeira e do Rio Grande do Sul. Seu papel na pacificação da província selou o fim da Revolução Farroupilha, não sem o protesto de muitos e a aclamação de outros, rendendo-lhe uma divisão na opinião dos historiadores.

Nascido em Rio Pardo a 8 de junho de 1807, era filho do português Eusébio Manuel Antônio, relojoeiro da Comissão de Demarcação de Limites subordinado ao Cel Francisco João Róscio, autor do projeto da Igreja Matriz em Cachoeira. Estabeleceu-se Eusébio, depois da demarcação, com relojoaria em Rio Pardo, onde casou em 2 de junho de 1798 com Vicênia Cândida da Fontoura. Foram os seguintes os filhos do casal: João (1805), Antônio Vicente (1807), Maria Egípcia (1810), Pedro Antônio (1811), Benta e José Antônio.

Quase menino, Antônio Vicente começou a trabalhar como caixeiro em um armazém de Rio Pardo e, aos 19 anos, veio para Cachoeira, empregando-se também como caixeiro.

Em 16 de janeiro de 1828, casou-se com Clarinda Francisca Porto, irmã de José Gomes Portinho. Desta união nasceram 15 filhos: Antônio (faleceu bebê - 1829), Clarinda Amália (1831), Josefa Leopoldina (1833), Gabriela Benta, Antônia Francisca, Antônio Eusébio (1836), José Propício (1837), Afonso Borges, Bento (1842), Maria Egípcia (1848), Vicência Cândida (1850), João Propício (1851), Francisco de Paula (1853), Luzia Sofia (1854, morreu com 7 anos) e Tito Castilhos (1856).


Clarinda e Antônio Vicente - provável foto de Luigi Terragno
- 1856 - Fototeca Museu Municipal


Em sociedade com um amigo, Fontoura adquiriu seu próprio armazém que logo se transformou no mais próspero da Vila Nova de São João da Cachoeira. Líder de sua classe, teve ativa participação política como vereador em mais de uma legislatura, procurador fiscal da Câmara (1831), juiz de paz e juiz ordinário, chefe de polícia (1837), entre outros. Apesar de filho de português, suas ideias eram liberais, fato que o levou à intensa e representativa participação na Revolução Farroupilha (1835-1845), despontando já no início da contenda, juntamente com Manduca Carvalho e Gaspar Francisco Gonçalves, em missão de pacificação na vizinha vila de Rio Pardo, quando lá não queriam reconhecer a autoridade instituída pelo governo republicano. Foi major da Guarda Nacional e, implantada a República Rio-Grandense, tornou-se ministro da fazenda; deputado à Constituinte de Alegrete, superando em votos a Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida e Antônio de Souza Neto, indiscutíveis líderes da revolução. No final, vendo derrotada a república, começou a costurar o acordo de paz com o império, voltando da corte com as condições de paz que precisou apresentar às lideranças em seus acampamentos. Finda a revolução, integrou a comissão para liquidar as indenizações devidas e pagar as dívidas públicas. Por estas atuações tornou-se o Embaixador da Paz. Foi condecorado, por sua participação e esforço, como Comendador da Imperial Ordem de Cristo, por decreto de 18 de outubro de 1855.

A atuação política forte de Antônio Vicente da Fontoura rendeu-lhe inimizades. O falecimento, ocorrido em 20 de outubro de 1860, se deu em decorrência do atentado que sofreu dentro da Igreja Matriz, no início de setembro, quando lá se realizavam eleições. Os mandantes do crime foram Hilário Pereira Fortes, Felisberto Machado de Carvalho Ourique e Dr. José Pereira da Silva Goulart, seus antigos opositores políticos. O infausto acontecimento desencadeou um longo inquérito policial com repercussão estadual e nacional, considerando a importância das pessoas envolvidas e as implicações políticas.

26         de fevereiro de 1861: abertura do inventário de Antônio Vicente da Fontoura pela viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Os bens de raiz, ou seja, os imóveis herdados foram: uma morada de casas sita na Rua Sete de Setembro (...) fazendo esquina com a Rua de São José (...); um armazém em frente às casas e rua acima referida; um armazém na Rua de São José contíguo às mesmas casas.


Capa do inventário de Antônio Vicente
- Arquivo Público do RS


14 de abril de 1877: falecimento da viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Foi nomeado inventariante o genro José Antônio Machado de Araújo, comerciante, casado com Vicência Cândida da Fontoura. Em 1882, Vicência Cândida morreu. Um ano depois, cumprindo o protocolo de luto, José Antônio casou com Benta Portinho, prima de Vicência e filha do General Portinho. Em 1908, José Antônio morreu, herdando a casa sua viúva, Benta Portinho de Araújo.

1917: Benta Portinho de Araújo vendeu a casa para Djalma Pereira da Silva. Esta transação encerrou o ciclo de utilização da casa pela família de Antônio Vicente da Fontoura.

Jornal O Commercio, 20/6/1917, p. 1 - Arquivo Histórico

Apesar da vida construída em Cachoeira e da relevância de sua atuação como cidadão e homem público além fronteiras do município, poucos resquícios materiais da figura Antônio Vicente da Fontoura ainda existem. A casa, embora as mudanças determinadas pelo tempo, pelas modificações exigidas por lei e as sucessivas adaptações a que deve ter sido submetida ao longo de mais de 170 anos de história, paira sobre ela o espectro de Antônio Vicente da Fontoura e a vida familiar que suas paredes encerraram. 

Por fim, fugindo da personagem histórica que lançou as fundações da casa 500, resta ainda a sua condição de edificação encravada no centro histórico, compondo a paisagem de casarões que se localizavam em torno do polo exercido pela Igreja Matriz, por muito tempo a maior e mais importante edificação urbana.

Lutemos pela preservação da casa 500 e do tanto que ela é capaz de nos contar. Seja sobre os seres que a habitaram, seja sobre os fatores que nela interferiram ao longo do tempo. Que logo ali adiante, quando o discernimento e o progresso material e intelectual nos mostrarem que o passado é o alicerce do futuro, não sejamos tomados pelo arrependimento que volta e meia nos assalta em cobranças. 

domingo, 29 de abril de 2018

Um prédio enigmático


Quem se aproximar da margem esquerda do rio Jacuí, chegando perto da plataforma do pretenso segundo porto de Cachoeira do Sul, irá divisar um pavilhão portentoso. Quase alheio a algumas ruínas que a ele se ligam e ignorando o ar de decadência, o pavilhão domina o paredão do rio. Paineiras centenárias lhe servem de moldura, marcando as estações de um tempo de convivência que eles, pavilhão e paineiras, não sabem mais contar em anos... 

Charqueada e plataforma do porto - Fototeca Museu Municipal

Paineira na Charqueada - Foto Defender

O cenário é o da extinta Charqueada e Estabelecimento Paredão, a primeira grande indústria da cidade, fundada em 1877. 
   
O portentoso pavilhão aparece em registro fotográfico de 1910, cercado de outras construções que dão a ideia do quanto grandioso era o complexo industrial da Charqueada.

Charqueada do Paredão - 1910 - Fototeca Museu Municipal


Por esses tempos a Charqueada se apresentava com a razão social de Brazilian Extract of Meat & Hide Factory Ltd., companhia inglesa que introduziu uma série de melhoramentos materiais no complexo. Anos mais tarde, em 1909, ainda sob administração inglesa, o pavilhão que domina até hoje o alto do paredão passou por uma expressiva obra, sendo melhorado em sua estrutura e nas condições higiênicas. O projeto, de engenheiros ingleses, mostrou-se sólido o suficiente para estar ainda hoje, mesmo que abandonado, ostentando sua condição de portentoso.


Placa indicativa da indústria - Fototeca Museu Municipal

As obras são referidas com detalhes pelo jornal Rio Grande, edição do dia 23 de dezembro de 1909, à página 2:

Fábrica Modelo
Estabelecimento do Paredão
A convite de seu operoso gerente, nosso amigo Sr. Henrique Pearson, tivemos o prazer de domingo último, assistir, às últimas demãos da nova fábrica de conservas alimentícias ali reconstruída.
A impressão que dela nos ficou é que não existe em todo o Rio Grande um estabelecimento que a este se avantaje, podendo nós sem temor de erro classificá-lo de fábrica modelar. É com desvanecimento, pois, que iniciamos a notícia desse novo edifício, acrescido aos que já existem naquele estabelecimento, que vem trazer à nossa terra pela sua terminação farta messe de benefícios, que atestam exuberantemente o engrandecimento material da conhecida fábrica.
Não há quem vindo a Cachoeira, embora passageiramente, e visitando o Paredão, não afirme ser este um modelo entre seus congêneres, máxime agora, com os melhoramentos que ali foram introduzidos e a reedificação da fábrica de conservas.
Esta que mede 58 metros de comprimento por 16 metros de largura, é um edifício de uma solidez inigualável, tendo a planta sido traçada por engenheiros ingleses que há pouco tempo visitaram a Charqueada. Dada a planta, feito o orçamento respectivo, começaram as obras sob a imediata fiscalização do digno gerente daquele próspero estabelecimento, nosso amigo Sr. Henrique Pearson.
Aproveitando o local onde se erguia a antiga fábrica, que apresentava base não muito sólida, houve necessidade de nele se fazer obras d’arte de valor, sendo as construções de uma solidez a toda prova.
Encarregou-se da parte relativa à construção de alvenaria o conhecido mestre Antonelli Oreste que mais uma vez mostrou a sua competência de profissional, sendo diretor da parte concernente à carpintaria Carlos Böer.
Uma das coisas que mais nos impressionou nessa construção foram as condições higiênicas que ela apresenta. Como de fato, em uma fábrica onde promiscuamente trabalham centenares de empregados em misteres pesados é condição primordial a capacidade cúbica de ar que cada um ali absorve, bem como a luz proveniente das aberturas existentes.
Na nova fábrica que o Estabelecimento do Paredão acaba de concluir, além de dezenas de janelas, a cada qual corresponde outras pequenas, tem o cimo da cumeeira aberturas laterais, de ponta a ponta, trazendo ao vasto salão muito ar facilmente renovado.
Todo o vigamento do edifício é de aço de primeira qualidade, vindo diretamente da Inglaterra, sendo as madeiras empregadas cabriúva, louro e pinho de riga. O piso da fábrica será de lajes, achando-se já ali 1.700. O custo total não excederá de 54 contos de réis, sendo que a inauguração será feita em janeiro.
Assistimos, porém, à terminação da cumeeira. Ao ser pelo chefe dos carpinteiros pregado o último prego, foram hasteadas sobre ela, desfraldando-se ao vento, as bandeiras brasileira e inglesa, ao espocar de dezenas de foguetes, sob a chuva de aplausos dos operários em festa.
Descobertos, ante o imponente ato, elevamos também os nossos vivas entusiásticos à digna companhia inglesa, cujo capital vem trazer à nossa terra e aos nossos operários a honrada contribuição de seu labor, na pessoa do cavalheiro Henrique Pearson, que sabe perfeitamente cumprir o seu dever na gerência que lhe foi em boa hora confiada. A fábrica que vimos de falar é uma das grandes iniciativas que a companhia e a nossa terra lhe devem; é um atestado de que o progresso em que marchamos é uma realidade. Não conhecemos, desde a fronteira, onde tivemos a ventura de visitar estabelecimentos saladeris de primeiro plano, outro que leve vantagens ao do Paredão com os melhoramentos por que passou. São dignos de nota, ficando em destaque, e ainda uma vez seja acentuado ser um estabelecimento modelo.
Terminada a cerimônia da conclusão da cumeeira foi aos operários, no grande salão que se acabava de inaugurar, servido um churrasco, sendo os convidados e representantes da imprensa levados para a sala de refeições do estabelecimento, onde lhes foi oferecido lauto almoço.
(...)
Mais uma vez seja-nos dado prantear, com efusão, os nossos agradecimentos ao Sr. Henrique Pearson pelo modo gentil e cavalheiresco com que fomos acolhidos, saudando pela consecução do seu desideratum em dotar a nossa terra com um estabelecimento superior aos seus similares no Estado.

Esta postagem é dedicada aos calouros (2018) da Faculdade de Arquitetura – UFSM/Cachoeira do Sul e aos professores Samuel Silva de Brito e Minéia Johann Scherer.

domingo, 15 de abril de 2018

As pedras do antigo porto

Muitas vezes o silêncio protege a história. Ou a ignorância da sua concretude. Tem sido assim com as velhas pedras que calçam o início da Moron, quando ela nasce lá no Jacuí, ainda mergulhada nas águas.


As grandes e irregulares pedras estão ali desde o início da década de 1850, quando Fidêncio Pereira Fortes empreitou a obra de construção da rampa de embarque e desembarque do porto da Vila Nova de São João da Cachoeira.


Cartão-postal em que se vê claramente as pedras da rampa da Moron
- Fototeca Museu Municipal

A navegação era, naqueles meados do século XIX, importante modal de transporte. O Jacuí, em sua magnitude de águas, permitia o trânsito de embarcações até 58 toneladas já no início da década de 1840, quando Antonio Kussmann e Nicolau Faller começaram a navegação comercial entre Rio Pardo e Cachoeira. Mas faltava um porto organizado, com uma rampa que garantisse comodidade ao trânsito no embarque e desembarque.

Em outubro de 1852, a Câmara de Cachoeira solicitou ao engenheiro Frederico Heydtmann uma planta e orçamento da rampa que chegou à cifra de 9:524$200 réis, considerada vultosa. Em janeiro de 1853, Fidêncio Pereira Fortes conseguiu arrematar a obra por 3:169$200 réis a menos. Como era praxe naquela época, apresentou como fiador Antônio Pereira Fortes e teve que aguardar que a presidência da Província aprovasse a arrematação, o que se deu em 4 de maio de 1853.

 Dentre as cláusulas do contrato de arrematação, estava prevista a entrega da obra para vistoria em dois anos, não sem antes comunicar, com a antecedência de dois meses, a conclusão de cada uma das etapas, como construção de alicerces, desaterro e empedramento, para que fossem examinadas por comissão designada pelas autoridades. O pagamento do valor contratado seria feito em três parcelas, sendo a mais alta, no valor de 3:177$500, no ato da portaria de arrematação, e as outras duas, no valor de 1:588$750 cada, quando a obra estivesse na metade e, por último, na conclusão.

O início das obras apresentou uma dificuldade imprevista ao arrematante. Um grande banco de pedra vermelha encontrado no local causou sobrecarga de trabalho para escavação, obrigando Fidêncio a solicitar indenização e apresentar orçamento suplementar. Aprovado o aumento no valor, o arrematante precisou solicitar adição no tempo de entrega em mais um ano.

Após todos os percalços surgidos, Fidêncio Pereira Fortes finalmente entregou a primeira parte da rampa e calçada do porto em 1.º de dezembro de 1856, não deixando de alertar que deveriam ser tocadas as obras de construção dos paredões, calçada e empedramento até o banco de pedra vermelha. Em 7 de abril de 1857 a Câmara abriu concorrência para o restante das obras, sendo vencedor José Ferreira Neves, tendo como fiador Antônio Vicente da Fontoura.

Há mais de 160 anos as pedras assentadas por Fidêncio Pereira Fortes estão no nascedouro da Moron. Submetem-se, desde 1856, ao vai e vem das águas do Jacuí. Agora, como que tomadas de vida, andam assoprando nos ouvidos dos pescadores que por ali deixam suas canoas que têm medo do asfalto. Não são contra o progresso, como alguns insistem em afirmar. Elas querem mesmo é preservar sua história.


           
Fotos: Cristina da Gama Mór
Fonte: Cachoeira do Sul em busca de sua história, de Angela S. Schuh e Ione M. Sanmartin Carlos. Martins-Livreiro Editor, Porto Alegre, 1991.