Espaços urbanos

Espaços urbanos
Para não esquecer o 1.º de maio e sua alusão ao trabalho - foto Robispierre Giuliani

sábado, 13 de maio de 2017

Abolição na Charqueada

Existem datas que são guardadas na memória desde os tempos dos bancos escolares, quando ainda era usual no estudo da história fixar os acontecimentos no tempo, com dia, mês e ano, e associá-los a personagens. Assim, a cada 13 de maio vem à memória a assinatura da lei áurea e a figura da Princesa Isabel, símbolo do rompimento formal, em 1888, do ciclo desumano que foi a escravidão.

Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel - 13/5/1888
- InfoEscola

A propaganda abolicionista ganhou corpo a partir de 1884, espalhando-se pelas cidades e atraindo principalmente jovens também partidários da ideia da república. A luta pela libertação dos negros cativos ganhou vozes poderosas, principalmente no jornalismo.

Em Cachoeira, a propaganda também se fez forte e chama a atenção uma notícia veiculada no jornal A Federação, de Porto Alegre, órgão do Partido Republicano, no dia 10 de outubro de 1884, que revela estar a Charqueada do Paredão prestes a conceder a liberdade a seus 58 escravos. É importante registrar que a Charqueada era, à época, a mais poderosa empresa da cidade e maior contribuinte dos cofres municipais. A sua mão-de-obra devia ser majoritariamente constituída de escravos e libertá-los foi um ato de vanguarda e digno de admiração.

Negros empregados na Charqueada - fototeca Museu Municipal

A notícia, intitulada Abolição na Cachoeira, diz o seguinte:

Segundo nos informou um amigo, é já uma feliz realidade a promessa que fez a importante firma social Viúva Claussen & Cia. relativamente à libertação dos 58 escravos que possuía na Charqueada do Paredão. O Sr. Claudio Bodé, que faz parte da firma e é o gerente da casa estabelecida no Rio Grande, foi propositalmente a Cachoeira conceder as liberdades prometidas, registrando as respectivas cartas no cartório do tabelião Peixoto.

Os novos libertados ficarão sujeitos à prestação de serviços durante tempo determinado, com direito, porém, a um salário razoável.

São hoje, portanto, homens verdadeiramente livres, pois, não obstante o ônus de serviços a que estão obrigados, têm uma justa remuneração pelo seu trabalho.

É digno de seguir-se o grande ato que acabam de praticar os manumissores* sócios da firma Viúva Claussen & Cia.

Provam reconhecer e saber cumprir o dever que lhes impõe a moral de não exercerem o direito de propriedade sobre o seu semelhante, reconhecido e garantido infelizmente pelas nossas leis; e ao mesmo tempo que procuram assegurar a sorte dos beneficiados com a outorga da sua liberdade, dão-lhes trabalho mediante salário, conseguem também braços que mantenham e façam prosperar o seu estabelecimento industrial.

Sem este emprego os libertos, de posse de sua liberdade, ver-se-iam talvez sem abrigo, sem uma colocação capaz de ministrar-lhes os meios de subsistência, lutariam bastante para encontrar trabalho, esse elemento indispensável na vida social a todos os homens.

Se conseguirmos uma minuta das cartas de liberdade dadas pela Viúva Claussen & Cia. aos seus escravos empregados no estabelecimento do Paredão, a reproduziremos como um aviso aos interessados, isto é, aos charqueadores de Pelotas.

Aos distintos sócios daquela firma, com especialidade ao Sr. Claudio Bodé, enviamos as nossas cordiais saudações. (Jornal A Federação, 10/10/1884, p. 2).

Chama atenção na matéria o quanto o jornalista valorizou o ato dos administradores da Charqueada, ressaltando nele a previdência de associar à liberdade os meios para que os escravos conseguissem sua subsistência, clara indicação de que as ideias abolicionistas demonstravam preocupação com o futuro dos libertos e que a "propaganda" não era uma mera bandeira, mas fruto de uma discussão profunda e amadurecida.

*Manumissores: os que concedem a alforria legal de um escravo.

sábado, 15 de abril de 2017

Os 105 anos do Bairro Rio Branco

Em abril de 1912, a imprensa noticiava que as obras para acesso ao futuro Bairro Rio Branco estavam em curso. Constavam de nivelamento do terreno, especialmente nas imediações das linhas da viação férrea, do prolongamento da Rua Moron em direção ao Norte, tomando o nome de Rua Marechal Floriano, e igualmente da Rua 15 de Novembro, recebendo a via o nome de Comendador Fontoura.

Tomada da cidade a partir do novo Bairro Rio Branco
- cartão-postal atribuído a Benjamin Camozato - sem data
- retocado por Ronaldo Bastos


Um dos primeiros cidadãos a adquirir terreno no loteamento feito pela Intendência foi Augusto Wilhelm, mais especificamente na então recém-aberta Rua Comendador Fontoura. Pois Augusto trataria de construir logo uma residência para sua família naquele logradouro, constituindo-se um dos primeiros a erguer casa no novo bairro.

Augusto Wilhelm - fototeca Museu Municipal
      
A casa de Augusto chegou até nossos dias conhecida por Villa Minssen. Mas originalmente ela se chamava Villa Adolfina, em homenagem à esposa de Augusto, Adolfina Moser Wilhelm. Em 1926, a casa foi vendida para João Minssen, casado com Frida, sobrinha de Augusto. O negócio foi fechado por 30 contos de réis, mostrando a rápida valorização que o bairro teve. Quando a Intendência adquiriu de Maria Egypcia da Fontoura a área para abrir o novo bairro, em julho de 1911, o desembolso por cerca de 200.000m2 foi de 5 contos de réis!

Villa Minssen - foto Claiton Nazar

Em sua edição do dia 6 de agosto de 1913, o jornal O Commercio noticiava que o primeiro prédio de custo elevado no “futuroso Bairro Rio Branco” foi o de Augusto Wilhelm. A qualidade da construção, o estilo, a localização e a extensão do terreno justificam o expressivo valor de sua venda 13 anos depois da conclusão. Com a aquisição, João Minssen trocou o nome inscrito no frontão para Villa Minssen.
         
Em 2017, quando a casa chega aos 104 anos, a grata notícia de seu restauro pela família de João Scheidt garante que o Bairro Rio Branco, além da condição de primeiro bairro planejado, agregue aos traços sócio-culturais que carrega a preocupação de manter os tesouros que ajudam a contar a sua mais que centenária história.

Sacada da Villa Minssen - foto reschmidt.blogspot.com

Villa Minssen pronta para o restauro - foto Jornal do Povo
      
Nota: o decreto n.º 125, de 7 de abril de 1912, denominou o loteamento aberto pela Intendência de Bairro Rio Branco.

sábado, 1 de abril de 2017

O Château d'Eau e o R2

Três dias antes da inauguração do Château d’Eau, que ocorreu em 18 de outubro de 1925, o então administrador do município, o vice-intendente João Neves da Fontoura, fez uma apresentação ao Conselho Municipal das obras de saneamento da cidade, com demonstração do investimento e descrição dos principais monumentos que compunham o sistema de distribuição de água da segunda hidráulica:

Dr. João Neves da Fontoura - vice-intendente em exercício - 1925
- fototeca Museu Municipal

“O Château d’Eau, situado no largo da Praça Dr. Balthazar de Bem, defronte ao edifício da Municipalidade, acha-se também concluído, apresentando belo aspecto arquitetônico, concorrendo muito para o embelezamento da cidade.

Château d'Eau e Igreja Matriz entre 1925 e 1929
- fototeca Museu Municipal

A parte arquitetônica foi projetada pelo engenheiro Walter Jobim e a parte de cálculo e estabilidade pelo engenheiro-chefe da Comissão de Saneamento do Estado, Dr. Antonio de Siqueira. As obras de escultura, constante de estátuas e grupos de ninfas e sereias que circundam o Château d’Eau foram executadas nas oficinas de Vicente Friedrichs, de Porto Alegre, sob a direção do professor Giuseppe Gaudenzi.


Château d'Eau recém-construído
- fototeca Museu Municipal

O fim deste Château d’Eau é o de levar a água por gravidade ao reservatório de distribuição à Rua Dr. Júlio de Castilhos, e regular ao mesmo tempo a pressão da água nas zonas mais elevadas.

Reservatório R2

Reservatório R2 - Coleção Joaquim Vidal

Ajardinamento do R2 - Coleção Joaquim Vidal

O R2 quase concluído - Coleção Joaquim Vidal

Esta é a denominação do grande reservatório construído à Rua Júlio de Castilhos, em terrenos comprados à sucessão de Juvencio Pillar Soares.

Esta obra, construída toda de cimento armado, está também terminada, faltando apenas a colocação da balaustrada e pequenos trabalhos de ornamentação, que em nada prejudicam o seu regular funcionamento.

Tem esse reservatório a capacidade de. 1.480 metros cúbicos e serve para abastecer d’água a zona média e parte da zona baixa do projeto do Dr. Saturnino de Britto.

Prevendo o desenvolvimento futuro da cidade, na câmara de manobras do reservatório já ficou espaço necessário para a instalação das bombas e encanamentos precisos que deverão elevar a água à zona alta da cidade, isto é, para o reservatório que deverá então ser construído nas proximidades do Cemitério Municipal.

(...)

Para encher ambos os compartimentos do Reservatório R2, acima referido, as bombas precisam trabalhar durante oito horas e a água ali armazenada será suficiente, então, para o consumo de 60 horas, ou sejam dois dias e meio.

Como se vê, o autor do projeto, Dr. Saturnino de Britto, uma das maiores notabilidades da engenharia sanitária no Brasil, previu amplamente o desenvolvimento futuro da nossa urbe.”


Fonte: Relatório apresentado ao Conselho Municipal pelo Vice-Intendente em exercício Dr. João Neves da Fontoura, em sessão de 15 de outubro de 1925 (IM/GI/AB/Re-005, pp. 15 e 16 - acervo documental do Arquivo Histórico).

A grande obra concluída por João Neves da Fontoura (havia iniciado ao tempo do Capitão Francisco Fontoura Nogueira da Gama, a quem João Neves sucedeu por motivos de saúde) ainda hoje encanta a todos. O Château d'Eau está desativado e não cumpre mais sua função de reservatório de água, mas o R2, no centro da Praça Borges de Medeiros, ainda abastece boa parte da zona alta da cidade. 

Tal qual Saturnino de Britto, também João Neves da Fontoura voltou os olhos para o futuro.