Espaços urbanos

Espaços urbanos
Catedral em festa - foto Renato F. Thomsen

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Reclames de 1931

Em 1931 publicava-se quinzenalmente em Cachoeira o jornal O Sorriso, crítico, humorístico, noticioso e literário, dirigido por "Pássaro Azul" e "Major Avatar". O jornalzinho (sem menosprezo, era de tamanho pequeno, pouco mais que uma folha A4 de nossos dias) tinha franca aceitação na comunidade a julgar pelo significativo número de anúncios publicitários que continha.

Os anúncios que seguem, transcritos respeitando a grafia da época, assim como os grifos, foram retirados do suplemento da edição do dia 15 de agosto de 1931:

Sempre que precisardes de fazer uma corrida - não esqueçais - o Auto n.º 28 está prompto a vos attender na Praça José Bonifacio.

Quereis trajar com elegancia? Recorrei á Alfaiateria de O. HUSEK - Rua 7 de Setembro, 954.

Precisaes de auto? O n.º 30 está á vossa disposição e nada vos deixará a desejar. Tel. da Praça José Bonifacio.


Quando quizerdes comprar discos excellentes e duraveis reparae a marca porque... se não é VICTOR 
não é Victrola 
se não é Victrola 
não é Orthophonica 
se não tem esta marca
Não será nenhuma
- Das tres cousas -
Unico recebedor, nesta praça:  Alcides Schilling
Phono-Arte - Rua 7 - 1121


QUE melhor presente póde haver do que uma joia? Basta escolhel-a na barateira casa Feldmann & Flasche - Rua 7 de Setembro, 207.

Conservas, seccos, molhados e especialidades pelos menores preços no Armazem Müller - Rua Saldanha Marinho, 1102.

QUEREIS um Retrato Artistico? Procurai o Studio Aurora.

A CARIOCA torra e móe o melhor café, que delicía pelo paladar agradabilissimo e sua superior qualidade.

Mercadinho de Adolpho Dilli - Rua 15 de Novembro, 645. Especialidades em frios e fiambres. Acceita pensionistas de mesa.

Quereis tomar um bom café ou jogar uma partida de bilhar? Procurai o Restaurant Commercial de Alberto Trommer á Rua 7 de Setembro que possue uma machina para o afamado café expresso e os melhores bilhares da praça.

Bebidas das melhores marcas nacionaes e extrangeiras, conservas e compotas. A maior e melhor fabricação de tortas e doces de todas as qualidades, incontestavelmente é na Confeitaria Central de Olivio H. Costa - Rua 7 de Setembro.

A Progressista de Jorge Thomaz, situada á rua Julio de Castilhos n.º 149, acaba de receber um bellissimo e variado sortimentos de fazendas, miudezas, roupas feitas, chapéos, calçados e perfumarias, a preços bem convidativos. Portanto, visitem-n'a.

Machinas Photographicas 30$000 Studio Aurora.

domingo, 27 de julho de 2014

O prestígio da beleza

Seria de crer que nesta época de ambições brutais, de mercantilismo insaciável e do egoísmo feroz, de trapaças políticas e vergonhosos manejos comerciais, a mulher tivesse perdido muito do seu antigo e ofuscante prestígio.
Pura ilusão. A mulher com o fascínio do mistério da sua perpetuamente enigmática feminilidade, com a sugestão e a magia da sua beleza, ainda reina soberana sobre o pensamento e as ambições dos homens, ainda é instigadora de heroísmos e de baixezas, de gestos que têm a magnificência dos ritmos imortais e de atos que amesquinham a natureza humana até a mais baixa animalidade, porque a mulher é sombra e luz, noite e madrugada, estrela acesa nas alturas da Idealidade e chama a crepitar em infernos torturantes de desejo.
Boa ou má, anjo bom ou anjo mau, ilusão ou engano, miragem encantadora ou amarga realidade, a mulher ainda conserva em todo o esplendor inextinguível o seu prestígio dominador.

As palavras acima, apesar da contemporaneidade, foram escritas por Angelo Guido em 1929 e servem como apresentação de um álbum reunindo as beldades rio-grandenses que participaram do Concurso Miss Rio Grande do Sul daquele ano.

O concurso movimentou as principais cidades do Estado, e Cachoeira, sendo uma delas, também enviou sua representante, a senhorita Branca Neves de Oliveira, que juntamente com as demais concorrentes foram apresentadas em um espetáculo realizado no Teatro São Pedro em 13 de março de 1929, evento que antecedeu a escolha de Miss Brasil. Na apresentação, o destaque foi para a eleita dos gaúchos, Billa Ortiz, Miss Uruguaiana.

Antes de participar da grande escolha em Porto Alegre, a representante de Cachoeira teve que passar por concurso local, tendo como concorrentes as beldades Maria Porto, a segunda colocada, e Alzira Torres, em terceiro lugar. A escolha foi por votação popular, angariando Branca Neves de Oliveira 6.684 votos; Maria Porto 4.407 e Alzira Torres 1895.

Página do álbum que mostra a primeira e segunda colocadas do Miss Cachoeira 1929
- acervo Arquivo Histórico
O álbum que registrou o grande concurso estadual, organizado pelo Diário de Notícias, de Porto Alegre, é fartamente ilustrado. Traz fotos artísticas das concorrentes das diversas cidades, assim como textos alusivos a algumas delas, louvando seus predicados. A miss cachoeirense ilustra duas belas páginas, revelando que os votos que recebeu contemplaram seus predicados de beleza. Há também muitos anúncios de patrocinadores e a relação do júri que promoveu a escolha de Miss Rio Grande do Sul, composto por: Angelo Guido, João Pinto da Silva, Andrade Queiroz, professor Libindo Ferrás, Dr. Mario Totta e Fernando Corona.

Branca Neves de Oliveira - Miss Cachoeira 1929
A candidata de Cachoeira não ficou dentre as sete primeiras colocadas, mas representou com muito brilho a beleza e graça da mulher cachoeirense, como revela a foto acima.

Este belo e raro álbum chegou aos nossos dias pelo gesto preservacionista de alguém que escolheu para ele melhor destino que a lata do lixo. Gestos como estes permitem que páginas da nossa história sejam revividas e traços da nossa cultura não sejam perdidos. 



domingo, 20 de julho de 2014

Plátanos na Rua Júlio de Castilhos

O Dr. Balthazar de Bem, Intendente Municipal, mandou vir de Buenos Aires, Argentina, no inverno de 1913, mudas de plátanos para que fossem plantadas ao longo da Rua Júlio de Castilhos e também nas ruas previstas para serem abertas, naquele mesmo ano, no recém-criado Bairro Rio Branco, ou seja, as ruas Comendador Fontoura e Marechal Floriano. É provável que os plátanos que ainda existem na Rua Presidente Vargas, anteriormente chamada de Rua Venâncio Aires, caminho para o Bairro Rio Branco, tenham sido da partida de mudas argentinas. 

Cartão-postal mostrando plátanos na Rua Júlio de Castilhos
- fototeca Museu Municipal
Plátanos na Rua Venâncio Aires, hoje Presidente Vargas
- fototeca Museu Municipal

Em setembro de 1913 a imprensa noticiava estar concluída a plantação.
Os plátanos da Rua Júlio de Castilhos desapareceram. Aliás, esta é uma das nossas ruas menos arborizadas. Mas muitos plátanos ainda estão lá no Bairro Rio Branco, e a julgar pela circunferência de seus troncos, podem muito bem ser os mesmos plantados há 101 anos!

Plátanos junto ao Banrisul - foto Jorge Ritter
Rua Presidente Vargas - plátanos junto ao extinto Hotel do Comércio
- foto Eduardo Minssen


sábado, 5 de julho de 2014

Um maestro francês em Cachoeira

Cachoeira era uma cidade próspera na década de 1920. O bom desempenho da economia, alicerçada no arroz e indústria metal-mecânica, produzia mudanças no cenário social e cultural.

A música foi uma das atividades culturais mais impulsionadas naqueles tempos. Palco de apresentações para artistas que vinham dos mais diversos recantos do país e exterior, a cidade usufruía da facilidade de locomoção oferecida pela linha que unia Uruguaiana a Porto Alegre através dos trens. O trajeto, que passava por Cachoeira, proporcionava que muitos desses artistas fizessem sua estada e apresentações por aqui, seguindo depois viagem para outros centros.

A freqüência de apresentações de concertistas, individualmente ou em grupos, criou um cenário musical muito rico no início do século XX. A família de David Soares de Barcellos, por exemplo, era extremamente musical. O casal David e Alzira Águeda de Barcellos teve 24 filhos e muitos deles tocavam diferentes instrumentos, formando praticamente uma orquestra familiar. O sobrado onde residiam na cidade, na Rua Sete de Setembro, era frequentemente palco de apresentações musicais. Um dos integrantes, Alcindo Barcellos, foi maestro reconhecido que em 18 meses circulou por 53 cidades do Brasil em concertos e ao promover um deles em Cachoeira, no ano de 1905, obteve grande público e excelentes críticas.

Sobrado de David S. de Barcellos - Rua Sete de Setembro
- fototeca Museu Municipal
Dentre tantos músicos que escolheram Cachoeira para suas apresentações, um deles, natural da França, aqui chegou ao final da década de 1910. Era Maurice Jean Maissiat, filho de Jorge Carlos Constantino Maissiat e Maria Lebas. Em 1918, Maurice casou-se com uma cachoeirense, Maria do Carmo Corrêa Loureiro, mesmo ano em que publicava no jornal O Comércio (1900 - 1966) que pretendia abrir um conservatório de música, oferecendo lições de piano, viola, violino, violoncelo, solfejo, teoria e história da música. Também lecionava francês pelo método Berlitz. Não há registro da trajetória do conservatório de Maissiat. Mas em 10 de julho de 1921 ele aparece na inauguração da Escola Musical de Cachoeira, acompanhando a “virtuose Laura Silva”.

Maurice com a esposa Maria do Carmo - Cachoeira
- fototeca Museu Municipal

A Escola Musical de Cachoeira foi uma das iniciativas do Centro de Cultura Artística, inaugurado no começo de 1921, em Porto Alegre, cujo objetivo era implantar nas principais cidades do Estado escolas de música que seriam centros de atração de talentos e de formação de músicos através de métodos então considerados modernos. Nossa Escola Musical, que funcionava no prédio do Clube Renascença, depois sede da União de Moços Católicos, na Rua Sete de Setembro, teve vida curta, mas profícua. Assim como Maurice Maissiat, contou com outro gênio musical vindo de fora: o nordestino Souto Menor.


Maurice Maissiat passou ainda por cidades como Santa Maria e Montenegro, deixando um importante legado musical.