Espaços urbanos

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Catedral em festa - foto Renato F. Thomsen

domingo, 31 de agosto de 2014

Ecos da 1.ª Grande Guerra em Cachoeira: o rompimento das relações entre Brasil e Alemanha

Em 18 de abril de 1917, o jornal O Commercio reproduziu d'A Federação ampla notícia que dava conta do rompimento de relações entre Brasil e Alemanha, provocado pelo torpedeamento do vapor brasileiro "Paraná" por submarino alemão. A ação aconteceu quando o navio brasileiro aproximava-se do porto de Havre, na França.

O presidente do Estado, Dr. Borges de Medeiros, por ocasião do acontecido, recebeu telegrama da Presidência da República, com a seguinte mensagem:
Consideramos essencial para a manutenção das relações que nenhum navio brasileiro seja atacado em qualquer mar, sob pretexto algum, mesmo de conduzir contrabando de guerra, tendo nações beligerantes arbitrariamente incluído tudo nessa categoria.

Em Cachoeira, na tarde do dia 13 de abril de 1917, foram distribuídos boletins convidando o povo para reunir-se na Avenida das Paineiras para um comício patriótico ao anoitecer.

Avenida das Paineiras - coleção Osvaldo Cabral de Castro
Lá pelas 19h30, reunido grande número de pessoas no local determinado, a Banda Musical Estrela Cachoeirense executou o Hino Nacional, ouvido com reverência por todos. A seguir, foi organizada uma passeata que percorreu várias ruas da cidade, retornando à Avenida das Paineiras e postando-se diante do Cinema Coliseu Cachoeirense e imediações.

O Dr. Arlindo Leal, subindo em um dos bancos da Praça José Bonifácio, visivelmente emocionado, "verberou o atentado contra a soberania brasileira, expresso no torpedeamento do vapor Paraná."

Ruy Barbosa
Logo após usou também da palavra o advogado Abrilino Lança, que leu uma oração patriótica, terminando com um Viva ao Brasil!, entusiasticamente correspondido. Foram lidos ainda por ele o conteúdo de dois telegramas endereçados pelos cachoeirenses ao Dr. Wenceslau Braz, Presidente da República, e ao Dr. Ruy Barbosa, referindo o apoio local aos atos de repúdio proferidos pela nação brasileira ao torpedeamento do navio.

Presidente Wenceslau Braz



Por fim, entoado o Hino Nacional mais uma vez, nova passeata dirigiu-se até a Intendência Municipal, dispersando-se depois na Rua Sete de Setembro.

Intendência Municipal - fototeca Museu Municipal



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Hospital de Caridade - 111 anos

A cidade está comemorando os 111 anos do Hospital de Caridade, patrimônio incontestável dos cachoeirenses, erguido à custa do esforço de muitos cidadãos que sonhavam com uma casa de saúde que atendesse aos doentes, fossem eles capazes ou não de pagar pelo tratamento lá recebido.

O jornal O Commercio, edição do dia 6 de outubro de 1915, na primeira página, traz uma publicação muito interessante dos primeiros tempos do Hospital, dando notícia sobre as instalações do prédio que à época tinha poucos anos de funcionamento e sobre o serviço de cirurgia, entregue a profissionais muito gabaritados para aquele tempo. Cachoeira, como acontecia em outros segmentos, atraía para si o que havia de ponta naquele começo de século XX.

A descrição feita pelo noticiarista, como assim era chamado, deu-se através de visita àquela casa de saúde.

A convite do Dr. Balthazar de Bem, visitamos domingo último o Sanatório desta cidade.
Depois das últimas reformas, o edifício oferece belo aspecto, com amplos quartos, fartamente providos de ar e luz, água encanada, luz elétrica, etc.
Na parte térrea existem oito quartos de primeira classe, sala de operações dotada de um completo material cirúrgico, autoclaves e estufas para esterilização, etc. Na parte superior do edifício ficam os quartos de segunda classe, em número de oito, e dois grandes salões para os doentes pobres, homens e mulheres, alojados separadamente. Cada um desses salões comporta 15 leitos.
Na ocasião da nossa visita ali estavam dois doentes, um de Rio Pardo e outro da Encruzilhada, recentemente submetidos a importantes e graves operações cirúrgicas feitas pelos Drs. Campelli e Giordano, sendo cloroformizador o Dr. Balthazar.
O Sanatório está destinado a prestar importantes serviços não só a Cachoeira, mas aos municípios vizinhos, principalmente no que se refere à clínica cirúrgica que para ser bem-sucedida precisa de uma instalação especial, como se encontra no estabelecimento que visitamos.    
O serviço de cirurgia está especialmente confiado aos Drs. Campelli e Giordano. O Dr. Campelli que foi na Europa assistente das clínicas cirúrgicas de Pavia e de ortopedia do professor Hoff de Berlim, é hoje talvez o médico de maior popularidade do Estado. Chegando ao Encantado há poucos anos, completamente desconhecido, o Dr. Campelli conseguiu uma rápida celebridade pelo brilho de suas felizes e ousadas operações. A sua fama encheu todo o Estado, e a sua clínica reuniu doentes das mais longínquas regiões do nosso território. Cirurgião habilíssimo, clínico de vasta erudição, o Dr. Campelli é ainda um cavalheiro que encanta pelos predicados de uma aprimorada educação.
O professor Dr. Henrique Giordano, cirurgião dos Hospitais Reunidos e dos Peregrinos de Nápoles, jovem ainda destacou-se como uma das figuras de mais competência e autoridade no meio científico onde trabalhava, adquirindo invejável renome por ter apresentado, em 1902, ao Congresso do Cairo, um operado de costura no coração perfeitamente restabelecido, e cuja fotografia publicamos.

Guglielmo Irattini, o operado, com 26 anos na época da cirurgia (1902)
- Coleção d'O Commercio - acervo do Arquivo Histórico -
Esse triunfo, operando sobre uma região considerada inatacável pela cirurgia, deu ao professor Giordano uma vasta nomeada na Europa. Os seus numerosos e importantes trabalhos honram as principais revistas médicas da Europa.
A seu respeito o Dr. Herreras Vegas, professor de clínica cirúrgica da Universidade de Buenos Aires, escreveu na Prensa Medica Argentina, de 10 de agosto de 1914: “O professor Giordano, um dos mais distinguidos cirurgiões da nova escola médica italiana diplomou-se em Nápoles em 1888. Não podendo fazer uma enumeração de todos os seus títulos e trabalhos, que se podem ver no seu curriculum vital, diremos apenas que conseguiu, por concurso, em 1899, o título de professor suplente de medicina operatória e, em 1900, o título de professor de traumatologia”.
Entre as suas principais publicações, todas de originalidade, estão: cirurgia do pericárdio e do coração (volume de 300 páginas), cujas principais conclusões foram aproveitadas por Le Dentu e Delbet, a mais importante obra de clínica cirúrgica existente no mundo; a cirurgia do fígado, etc.      
Em 1914, o professor Giordano foi recebido no mundo científico de Buenos Aires com honras excepcionais, sendo convidado pelos professores da Faculdade para fazer no Hospital de Clínicas conferências sobre feridos do coração e sobre a cirurgia das guerras modernas, conferências essas que foram taquigrafadas e publicadas na Prensa Medica Argentina. Também por convite fez uma comunicação sobre a cura cirúrgica dos tumores do fígado na Sociedade Médica Argentina, da qual foi nomeado sócio honorário, distinção esta que a mesma sociedade não tinha feito, entre os italianos, senão para os gloriosos nomes de Durante e Navaro.
Sob o amparo da celebrada competência dos Drs. Campelli e Giordano é que se vai iniciar a vida cirúrgica do Sanatório de Cachoeira.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ecos da 1.ª Grande Guerra em Cachoeira

A 1.ª Guerra Mundial teve início em 4 de agosto de 1914. Durante quatro longos anos o mundo se viu conflagrado. Fronteiras foram mudadas, domínios contestados e grandes transformações promovidas no cenário político mundial. A primeira foi uma macabra preparação para a segunda grande guerra!
A Cachoeira de 100 anos atrás não ficou desavisada da convulsão que tomou o mundo. Mas infelizmente - e coincidentemente - os jornais que circulavam na época não preservaram os exemplares publicados naquele primeiro ano da guerra. Nem O Commercio tampouco o Rio Grande dispõem em suas coleções dos volumes correspondentes a 1914.
Mas no ano de 1915, segundo da guerra, com os preciosos volumes bem preservados no Arquivo Histórico, há muitas notícias sobre o front. Textos publicados em jornais brasileiros e estrangeiros são reproduzidos pelo O Commercio, assim como vez ou outra há alguma referência aos ecos do momento em Cachoeira, refletindo a posição dos editores. Como a que segue, extraída da edição do dia 24 de fevereiro de 1915, página 3:

Fotografias da guerra. Um amigo trouxe ontem ao nosso escritório um grande número de fotografias do teatro da guerra, de que exporemos hoje uma parte em nossa vitrine. Mais do que qualquer descrição fatigante, falam esses quadros pelos quais se depreende, além de outras muitas coisas, que enquanto os russos iam derrubando igrejas na Prússia oriental, os alemães respeitavam os templos da Polônia, deixando assim patente a quem cabe o qualificativo de bárbaros. Várias fotografias dos ultra-civilizados auxiliares dos aliados, compostos de indianos, marroquinos (amarelos e pretos) etc., dão bem uma ideia da grandeza de ânimo com que a Alemanha e a Áustria vão sustentando essa luta desumana. 

As fotos não são descritas na matéria, mas as imagens a seguir dão a dimensão do "palco de guerra".

Catedral de St. Martin destruída - Bélgica
- www.sabado.pt
Soldados indianos na 1.ª Guerra - www.rusmea.com