Espaços urbanos

Espaços urbanos
Para não esquecer o 1.º de maio e sua alusão ao trabalho - foto Robispierre Giuliani

sábado, 13 de maio de 2017

Abolição na Charqueada

Existem datas que são guardadas na memória desde os tempos dos bancos escolares, quando ainda era usual no estudo da história fixar os acontecimentos no tempo, com dia, mês e ano, e associá-los a personagens. Assim, a cada 13 de maio vem à memória a assinatura da lei áurea e a figura da Princesa Isabel, símbolo do rompimento formal, em 1888, do ciclo desumano que foi a escravidão.

Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel - 13/5/1888
- InfoEscola

A propaganda abolicionista ganhou corpo a partir de 1884, espalhando-se pelas cidades e atraindo principalmente jovens também partidários da ideia da república. A luta pela libertação dos negros cativos ganhou vozes poderosas, principalmente no jornalismo.

Em Cachoeira, a propaganda também se fez forte e chama a atenção uma notícia veiculada no jornal A Federação, de Porto Alegre, órgão do Partido Republicano, no dia 10 de outubro de 1884, que revela estar a Charqueada do Paredão prestes a conceder a liberdade a seus 58 escravos. É importante registrar que a Charqueada era, à época, a mais poderosa empresa da cidade e maior contribuinte dos cofres municipais. A sua mão-de-obra devia ser majoritariamente constituída de escravos e libertá-los foi um ato de vanguarda e digno de admiração.

Negros empregados na Charqueada - fototeca Museu Municipal

A notícia, intitulada Abolição na Cachoeira, diz o seguinte:

Segundo nos informou um amigo, é já uma feliz realidade a promessa que fez a importante firma social Viúva Claussen & Cia. relativamente à libertação dos 58 escravos que possuía na Charqueada do Paredão. O Sr. Claudio Bodé, que faz parte da firma e é o gerente da casa estabelecida no Rio Grande, foi propositalmente a Cachoeira conceder as liberdades prometidas, registrando as respectivas cartas no cartório do tabelião Peixoto.

Os novos libertados ficarão sujeitos à prestação de serviços durante tempo determinado, com direito, porém, a um salário razoável.

São hoje, portanto, homens verdadeiramente livres, pois, não obstante o ônus de serviços a que estão obrigados, têm uma justa remuneração pelo seu trabalho.

É digno de seguir-se o grande ato que acabam de praticar os manumissores* sócios da firma Viúva Claussen & Cia.

Provam reconhecer e saber cumprir o dever que lhes impõe a moral de não exercerem o direito de propriedade sobre o seu semelhante, reconhecido e garantido infelizmente pelas nossas leis; e ao mesmo tempo que procuram assegurar a sorte dos beneficiados com a outorga da sua liberdade, dão-lhes trabalho mediante salário, conseguem também braços que mantenham e façam prosperar o seu estabelecimento industrial.

Sem este emprego os libertos, de posse de sua liberdade, ver-se-iam talvez sem abrigo, sem uma colocação capaz de ministrar-lhes os meios de subsistência, lutariam bastante para encontrar trabalho, esse elemento indispensável na vida social a todos os homens.

Se conseguirmos uma minuta das cartas de liberdade dadas pela Viúva Claussen & Cia. aos seus escravos empregados no estabelecimento do Paredão, a reproduziremos como um aviso aos interessados, isto é, aos charqueadores de Pelotas.

Aos distintos sócios daquela firma, com especialidade ao Sr. Claudio Bodé, enviamos as nossas cordiais saudações. (Jornal A Federação, 10/10/1884, p. 2).

Chama atenção na matéria o quanto o jornalista valorizou o ato dos administradores da Charqueada, ressaltando nele a previdência de associar à liberdade os meios para que os escravos conseguissem sua subsistência, clara indicação de que as ideias abolicionistas demonstravam preocupação com o futuro dos libertos e que a "propaganda" não era uma mera bandeira, mas fruto de uma discussão profunda e amadurecida.

*Manumissores: os que concedem a alforria legal de um escravo.

sábado, 15 de abril de 2017

Os 105 anos do Bairro Rio Branco

Em abril de 1912, a imprensa noticiava que as obras para acesso ao futuro Bairro Rio Branco estavam em curso. Constavam de nivelamento do terreno, especialmente nas imediações das linhas da viação férrea, do prolongamento da Rua Moron em direção ao Norte, tomando o nome de Rua Marechal Floriano, e igualmente da Rua 15 de Novembro, recebendo a via o nome de Comendador Fontoura.

Tomada da cidade a partir do novo Bairro Rio Branco
- cartão-postal atribuído a Benjamin Camozato - sem data
- retocado por Ronaldo Bastos


Um dos primeiros cidadãos a adquirir terreno no loteamento feito pela Intendência foi Augusto Wilhelm, mais especificamente na então recém-aberta Rua Comendador Fontoura. Pois Augusto trataria de construir logo uma residência para sua família naquele logradouro, constituindo-se um dos primeiros a erguer casa no novo bairro.

Augusto Wilhelm - fototeca Museu Municipal
      
A casa de Augusto chegou até nossos dias conhecida por Villa Minssen. Mas originalmente ela se chamava Villa Adolfina, em homenagem à esposa de Augusto, Adolfina Moser Wilhelm. Em 1926, a casa foi vendida para João Minssen, casado com Frida, sobrinha de Augusto. O negócio foi fechado por 30 contos de réis, mostrando a rápida valorização que o bairro teve. Quando a Intendência adquiriu de Maria Egypcia da Fontoura a área para abrir o novo bairro, em julho de 1911, o desembolso por cerca de 200.000m2 foi de 5 contos de réis!

Villa Minssen - foto Claiton Nazar

Em sua edição do dia 6 de agosto de 1913, o jornal O Commercio noticiava que o primeiro prédio de custo elevado no “futuroso Bairro Rio Branco” foi o de Augusto Wilhelm. A qualidade da construção, o estilo, a localização e a extensão do terreno justificam o expressivo valor de sua venda 13 anos depois da conclusão. Com a aquisição, João Minssen trocou o nome inscrito no frontão para Villa Minssen.
         
Em 2017, quando a casa chega aos 104 anos, a grata notícia de seu restauro pela família de João Scheidt garante que o Bairro Rio Branco, além da condição de primeiro bairro planejado, agregue aos traços sócio-culturais que carrega a preocupação de manter os tesouros que ajudam a contar a sua mais que centenária história.

Sacada da Villa Minssen - foto reschmidt.blogspot.com

Villa Minssen pronta para o restauro - foto Jornal do Povo
      
Nota: o decreto n.º 125, de 7 de abril de 1912, denominou o loteamento aberto pela Intendência de Bairro Rio Branco.

sábado, 1 de abril de 2017

O Château d'Eau e o R2

Três dias antes da inauguração do Château d’Eau, que ocorreu em 18 de outubro de 1925, o então administrador do município, o vice-intendente João Neves da Fontoura, fez uma apresentação ao Conselho Municipal das obras de saneamento da cidade, com demonstração do investimento e descrição dos principais monumentos que compunham o sistema de distribuição de água da segunda hidráulica:

Dr. João Neves da Fontoura - vice-intendente em exercício - 1925
- fototeca Museu Municipal

“O Château d’Eau, situado no largo da Praça Dr. Balthazar de Bem, defronte ao edifício da Municipalidade, acha-se também concluído, apresentando belo aspecto arquitetônico, concorrendo muito para o embelezamento da cidade.

Château d'Eau e Igreja Matriz entre 1925 e 1929
- fototeca Museu Municipal

A parte arquitetônica foi projetada pelo engenheiro Walter Jobim e a parte de cálculo e estabilidade pelo engenheiro-chefe da Comissão de Saneamento do Estado, Dr. Antonio de Siqueira. As obras de escultura, constante de estátuas e grupos de ninfas e sereias que circundam o Château d’Eau foram executadas nas oficinas de Vicente Friedrichs, de Porto Alegre, sob a direção do professor Giuseppe Gaudenzi.


Château d'Eau recém-construído
- fototeca Museu Municipal

O fim deste Château d’Eau é o de levar a água por gravidade ao reservatório de distribuição à Rua Dr. Júlio de Castilhos, e regular ao mesmo tempo a pressão da água nas zonas mais elevadas.

Reservatório R2

Reservatório R2 - Coleção Joaquim Vidal

Ajardinamento do R2 - Coleção Joaquim Vidal

O R2 quase concluído - Coleção Joaquim Vidal

Esta é a denominação do grande reservatório construído à Rua Júlio de Castilhos, em terrenos comprados à sucessão de Juvencio Pillar Soares.

Esta obra, construída toda de cimento armado, está também terminada, faltando apenas a colocação da balaustrada e pequenos trabalhos de ornamentação, que em nada prejudicam o seu regular funcionamento.

Tem esse reservatório a capacidade de. 1.480 metros cúbicos e serve para abastecer d’água a zona média e parte da zona baixa do projeto do Dr. Saturnino de Britto.

Prevendo o desenvolvimento futuro da cidade, na câmara de manobras do reservatório já ficou espaço necessário para a instalação das bombas e encanamentos precisos que deverão elevar a água à zona alta da cidade, isto é, para o reservatório que deverá então ser construído nas proximidades do Cemitério Municipal.

(...)

Para encher ambos os compartimentos do Reservatório R2, acima referido, as bombas precisam trabalhar durante oito horas e a água ali armazenada será suficiente, então, para o consumo de 60 horas, ou sejam dois dias e meio.

Como se vê, o autor do projeto, Dr. Saturnino de Britto, uma das maiores notabilidades da engenharia sanitária no Brasil, previu amplamente o desenvolvimento futuro da nossa urbe.”


Fonte: Relatório apresentado ao Conselho Municipal pelo Vice-Intendente em exercício Dr. João Neves da Fontoura, em sessão de 15 de outubro de 1925 (IM/GI/AB/Re-005, pp. 15 e 16 - acervo documental do Arquivo Histórico).

A grande obra concluída por João Neves da Fontoura (havia iniciado ao tempo do Capitão Francisco Fontoura Nogueira da Gama, a quem João Neves sucedeu por motivos de saúde) ainda hoje encanta a todos. O Château d'Eau está desativado e não cumpre mais sua função de reservatório de água, mas o R2, no centro da Praça Borges de Medeiros, ainda abastece boa parte da zona alta da cidade. 

Tal qual Saturnino de Britto, também João Neves da Fontoura voltou os olhos para o futuro.

segunda-feira, 27 de março de 2017

As dimensões do Château d'Eau


Château d'Eau - 25/3/2017 - ato de entrega do restauro
- foto Renato F. Thomsen
No dia 25 de março de 2017, o Château d'Eau foi reaberto à comunidade, depois de 10 meses de processo de restauração. Naquele dia, tive a honra de representar o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural - COMPAHC em pronunciamento de saudação ao retorno de nosso principal cartão-postal à sua magnitude. Eis o discurso proferido na ocasião:  

Foto Renato F. Thomsen
                                                                                                            
A DIMENSÃO SIMBÓLICA. Muitos de nós sabíamos da dimensão simbólica do Château d’Eau, das mensagens subliminares que ele continha enquanto monumento em interação com o seu entorno, com a história e o povo de Cachoeira do Sul. Mas estávamos cegos e surdos... As camadas do tempo e da falta de cuidado encobriram a sua capacidade de dialogar conosco. Ou nós, obtusos, perdemos a sintonia com ele... Seu estado fez com que adquiríssemos um certo constrangimento de apresentá-lo aos visitantes, cartão-postal que sempre foi, e as fotos que registravam nossos melhores momentos passaram a buscar ângulos favoráveis.

A DIMENSÃO HISTÓRICA. 91 anos de história perpassam gerações. As primeiras, testemunhas da construção e inauguração do Château d’Eau em 1925, experimentaram a beleza do monumento em sua condição de recém-construído,  vivenciaram a movimentação dos operários, dos engenheiros, dos técnicos que realizaram o milagre da distribuição de água para um maior número de casas, ampliando a área atingida. Devem ter sentido a emoção de ver a colocação do deus Netuno, com seu tridente, dominar os céus e as ninfas que em torno dele se assentaram. Obras do mestre Giuseppe Gaudenzi executadas por João Vicente Friedrichs. Sua chegada, provavelmente na Estação Ferroviária, em grandes caixas de madeira protegidas de palha, não passaram despercebidas. Tais figuras mitológicas passaram a habitar o cotidiano, remetendo à antiguidade e aos mistérios de deuses e sábios do passado. Hoje nos surpreendemos o quanto de tempo, conhecimento e visão de futuro Walter Jobim, o engenheiro responsável pela parte arquitetônica da obra, e Antônio de Siqueira, pelos cálculos e estabilidade, empregaram para planejar este fascinante monumento. E somos levados a pensar que a funcionalidade do passado podia ser expressa em simbologia e beleza e que para isto era preciso domínio de técnicas sofisticadas em um mundo ainda com pouca tecnologia. Mas com o distanciamento temporal, assim como a estrutura física, também a relevância histórica precisa ser restaurada e repassada às gerações que não testemunharam o seu surgimento.

A DIMENSÃO DA RECUPERAÇÃO. A contemplação do Château d’Eau agora, em semelhante aspecto de quando foi inaugurado há quase 92 anos, nos leva a crer que assim como enquanto pessoas temos a capacidade de recuperar nossa auto-estima, também os monumentos, especialmente aqueles que traduzem o nosso meio, a nossa cultura e a nossa cidadania, ao serem restaurados em sua estrutura conferem à cidade a condição de reencontrar-se com sua história e tomar partido dela para acreditar em desenvolvimento, em superação e em um futuro de novas conquistas. O mestre Antônio Sarasá, protagonista do restauro do Château d’Eau, promoveu em cada um de nós, de acordo com a  capacidade de entendimento individual, uma espécie de comunhão entre a  materialidade do monumento e sua simbologia. E, por nossa conta, fomos além: não conseguimos mais dissociar a harmonia e a grandiosidade dos elementos que compõem o nosso centro histórico. Paço, Château d’Eau e Catedral são a expressão máxima do quanto a civilidade, o empreendedorismo e a visão prospectiva marcaram os movimentos dos nossos antepassados, ditando o presente e o futuro.

A DIMENSÃO DO AGRADECIMENTO. 25 de março de 2017. Dia de celebração e de agradecimento. À CORSAN – Companhia Riograndense de Saneamento, patrocinadora do restauro e ao Estúdio Sarasá, executor das obras, destacando Antônio Sarasá e sua equipe de operários, cuja interação com a comunidade foi especial;  ao Executivo Municipal em sua gestão anterior e atual; aos colegas conselheiros do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural – COMPAHC, aos cidadãos voluntários pela preservação do patrimônio histórico e muito especialmente, in memoriam, a Nelda Scheidt e seu excepcional olhar sobre o Château d’Eau. Nelda, onde estiveres, ele voltou a realçar tudo aquilo que o teu olhar nos fez enxergar. E como agradecimento combina com pedido: Senhor Presidente da CORSAN, o Château d’Eau em sua funcionalidade trabalhava em conjunto com outra maravilha arquitetônica de nosso patrimônio: o reservatório enterrado da Praça Borges de Medeiros. Olhe por ele, ouça seu pedido de socorro e atenda-o.

A DIMENSÃO DA RESPONSABILIDADE. O COMPAHC, criado em 1981, sentia-se responsável e era cobrado como tal pela recuperação dos bens do nosso patrimônio histórico e tomou para si o compromisso de buscar meios de trazer o Château d’Eau de volta à condição de nosso principal cartão-postal, atendendo a cobranças da própria comunidade. Muitas reuniões de discussões, de estudos, de levantamento de patologias e análises de problemas estruturais foram realizadas. Alguns conselheiros, especialmente os que possuíam conhecimento técnico, ofereceram seus préstimos para que chegássemos ao dia de hoje. E agora que recebemos de volta o nosso ícone, joia preciosa do tesouro urbano, caberá a cada um de nós zelar pela sua integridade e entendê-lo como documento afirmativo de uma verdade: povo que guarda seu passado não perderá jamais a sua identidade.

Em nome do corpo de conselheiros do COMPAHC, meu muito obrigada! A vivência deste momento já o tornou inesquecível!

Cachoeira do Sul, 25 de março de 2017.

Mirian R. M. Ritzel,

Vice-presidente do COMPAHC.

Foto Renato F. Thomsen

No mesmo ato, o Château d'Eau foi declarado patrimônio histórico-cultural do Rio Grande do Sul, sendo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAE, quando o Secretário de Estado da Cultura,  Vitor Hugo, acompanhado pela presidente do IPHAE, Míriam Sartori Rodrigues, assinaram com o prefeito e outras testemunhas a portaria de tombamento.

Secretário de Estado da Cultura, Vitor Hugo, prestes a assinar o tombamento do Château d'Eau
- foto Renato F. Thomsen

Para assistir ao pronunciamento, clique no link abaixo. Agradecimento a Renato F. Thomsen:

Recomendado: Château d'Eau: símbolos que vivem, de Flávia Sutelo - Estúdio Sarasá:

segunda-feira, 20 de março de 2017

Teatro Municipal - uma dívida que atravessou décadas

Pode-se dizer que Cachoeira teve tradição em erguer casas de espetáculos para o entretenimento da população. Tais casas logicamente representavam o seu tempo, ou melhor, atendiam ao tipo de diversão da época. Foi assim no século XIX, com os teatros, e no século XX, com os cinemas. 

A primeira grande casa do gênero que se levantou em Cachoeira foi o Teatro Cachoeirense, erguido antes da Revolução Farroupilha, com incríveis 500 lugares! Cabia quase toda a população da Vila Nova de São João da Cachoeira lá dentro! Há divergências a respeito da finalização desta obra, mas o fato é que em abril de 1830 houve a encenação de uma peça jocosa no seu palco, estando a assistência lotada. A classe comerciária, então chamada de caixeiral, foi a responsável por erguer o tal templo das representações, um forte sinal de que o comércio era a grande força econômica nos primeiros tempos, sendo fundamental para o crescimento e a ascensão da freguesia à vila e depois da vila à cidade!


Teatro Cachoeirense - fototeca Museu Municipal

Do Teatro Cachoeirense há poucas notícias. Seu prédio estava ali quando teve começo a construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, em 1861, e bem mais tarde, no final de 1885, uma correspondência do delegado de polícia recomendava aos vereadores que gradeassem uma janela da cadeia que “dava para o pátio (...) de forma que qualquer preso não possa servir-se dela para galgar o muro que tem do lado do Teatro desta cidade”. Quase vinte anos depois, a Intendência contratou a construção de um muro “na parede do lado sul do teatro velho que foi  incendiado”. Esta informação de 1909 confirma, embora não haja documento descrevendo o sucedido, que o “teatro velho”, ou o Teatro Cachoeirense, havia sido consumido pelo fogo, provavelmente na virada do século XIX para o século XX.


A Intendência e o Teatro Cachoeirense - fototeca Museu Municipal

Talvez em razão da perda do primeiro teatro, o povo de Cachoeira logo começou a sonhar com outro. As tratativas para isto envolveram pessoas influentes da comunidade, de forma que o intendente David Soares de Barcellos, homem que se depreende fosse apreciador das artes, uma vez que mantinha uma orquestra familiar integrada pelos filhos, empenhou-se sobremaneira para a construção do Teatro Municipal. A Intendência passou a emitir apólices com o intuito de arrecadar recursos para a obra que foi inaugurada no Natal de 1900.


Construção do Teatro Municipal - fototeca Museu Municipal

Teatro e Intendência Municipal - fototeca Museu Municipal

Levando em consideração o investimento na construção e o pouco tempo de funcionamento do Teatro (menos de oito anos), arruinado pelo desmoronamento do telhado**, a ideia das apólices resultou em uma dívida aos cofres municipais que levou mais de 60 anos para ser saldada!

Sobre isto a edição do Jornal do Povo de 24 de setembro de 1961 estampou:

Prefeitura vem resgatando apólices emitidas em 1900 para a construção do Teatro Municipal

“No período de 1900 a 1924, o Município emitia um determinado número de apólices visando mealhar fundos para a compra de terrenos e a construção do Teatro Municipal e quartéis militares. As apólices emitidas em 1924 eram assinadas pelo então intendente Aníbal Loureiro, pelo contador Wladimir Nogueira e pelo tesoureiro Augusto Cézar de Lima, sendo seu valor nominal de 1.000,oo cruzeiros, rendendo juros de 10% aos adquirentes. Quanto às emitidas em 1900, eram do mesmo valor nominal, rendendo porém um menor juro anual (8%), sendo rubricadas pelo intendente David S. Barcellos, Galvão de Abreu, Alfredo Xavier da Cunha, Pedro Kieper, Manoel Paes de Freitas, José Friedrich e Júlio Jacobim*. A colocação desses valores permitiu ao Município colimar seus objetivos: os terrenos foram adquiridos. Um deles, entregue ao governo para a construção dos quartéis e que corresponde àquele onde até hoje se situam nossas guarnições militares. Sobre o outro imóvel ergueu-se o Teatro Municipal que funcionou até por volta de 1907 (...)."

E o jornal segue a matéria dizendo que até aquele momento o município estava resgatando essas apólices, sobre as quais pagava juros. Havia procedido ao resgate de 37, restando ainda 44 a serem resgatadas...

Sem condições de recuperar os estragos advindos do desabamento, a Intendência passou o prédio em 1913 para o governo estadual para que nele fosse instalado o fórum e o Colégio Elementar Antônio Vicente da Fontoura. 

Como se vê, grande foi o investimento, pequeno o retorno do portentoso prédio do Teatro Municipal. A dívida contraída pela municipalidade com as apólices a juros demorou décadas para ser saldada. Mesmo assim é de se lamentar que o prédio tenha desaparecido e, se porventura ainda existisse, comporia com grande garbo o já rico conjunto arquitetônico de nosso Centro Histórico.

*Foi mantida a grafia utilizada pelo jornal nos nomes próprios referidos na matéria transcrita.
**http://historiadecachoeiradosul.blogspot.com.br/search?q=desmoronamento+do+teatro+municipal

segunda-feira, 13 de março de 2017

Ruben Otto Prass - simplesmente genial, genialmente simples

Ruben Prass na direção do Prass 1956 - acervo familiar

Alguém um dia disse que “os homens vão, mas ficam suas obras”. De Ruben Otto Prass, que partiu no dia 11 de março de 2017, pode-se fazer um inventário enorme de obras, fruto da sua genialidade e de um espírito inventivo advindo da dedicação extrema e incansável à sua paixão: a eletricidade.

Desse homem que viveu 92 anos produtivos não serão lembradas somente as obras, boa parte delas em pleno funcionamento dentro do recinto do seu lar e da esposa Ieda, mas também a fama da genialidade e a associação popular de sua figura à do Professor Pardal dos quadrinhos de Walt Disney! Fama que, aliás, não é desmedida, uma vez que ele foi o fabricante do primeiro carro artesanal do Brasil, o Prass 1956, carinhosamente apelidado pela família de “autinho”, e que ganhou divulgação nacional em 2009, quando o programa Auto Esporte, da Rede Globo, levou ao ar a história do carro construído a partir do motor de uma motocicleta!

Pela residência dos Prass vários inventos de Ruben garantiram a facilitação das atividades domésticas da D. Ieda, como fornecimento de água quente para toda a casa por meio da captação de energia solar, elevador feito com correias de bicicletas para condução ao terraço, onde fica o varal, climatização da casa inteira com um único aparelho de ar-condicionado, que também funciona como secadora de roupas, e até um aparelho de ultrassom para espantar mosquitos!

Nascido em Candelária no dia 5 de junho de 1924, filho de Rodolpho Prass e Elizabetha Jensen Prass, Ruben Otto veio para Cachoeira, onde trabalhou, do final dos anos 1930 até meados dos anos 1940, na Casa Elétrica de Guilherme Matte. Em 1949, com o irmão gêmeo Reimar Hugo, instalou a firma Centro Rádio Elétrico. E como eletrotécnico, prestou muitos e variados serviços: instalações elétricas em prédios e residências, manutenção técnica de emissoras de televisão e rádio, assistência a casas de cinema, como o Cine Ópera Astral, desde a sua abertura em 1953 até o seu fechamento em 2003, e recentemente do Cine Via Sete. A modernidade e a evolução tecnológica, antes de assustá-lo, o estimulava em sua genial capacidade de entender os mistérios da eletroeletrônica.

Trabalhando até o fim - 1/3/2017 - foto Elizabeth Thomsen

A trajetória de vida de Ruben Otto Prass não se esgota em sua extrema capacidade profissional e criativa. Ganha projeção também e muito significativamente no envolvimento comunitário e nas ações voluntárias em prol de entidades e espaços públicos.
Voltando à frase que alguém disse: “os homens vão, mas ficam suas obras”, de Ruben Otto Prass ainda é preciso dizer mais. Que fique registrado o sorriso franco e a imensa simplicidade, a família que constituiu com Eli Ieda Homrich Prass (Elizabeth, Lúcia, Roberto, Elaine e Luciana), as infindáveis horas que passou a consertar e criar, as soluções geniais que encontrou para os desafios diários. Ficou dele o legado de homem simplesmente genial e genialmente simples que tinha o dom sofisticado de inventar e a singeleza de alimentar pássaros pela manhã. 
Nota: este texto é para Elizabeth Thomsen, companheira de lutas em prol da preservação da memória de Cachoeira do Sul e, em seu nome, extensivo a toda a família de Ruben Otto Prass.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Hilda Goltz - uma grande mulher grande

Hilda Goltz, nascida em Cerro Branco, então distrito de Cachoeira, em 29 de junho de 1908, poderia renascer hoje e ainda assim chamar a atenção, apesar do distanciamento temporal e da escalada da mulher na sociedade de lá para cá.


Hilda Goltz em foto de 2008
A personalidade forte de Hilda já dava sinais desde a sua tenra idade e, talvez por ser a quinta filha dos sete que Carlos Goltz e Ida Stecker Goltz tiveram, a menina era satisfeita em seus desejos. Aos seis anos, interessada em reproduzir o universo que a cercava, começou a moldar com o barro vermelho de um riacho figuras dos animais que havia nos campos de seus pais. Na adolescência, descobrindo que amigas que estudavam em São Leopoldo tinham aulas de pintura, pediu aos pais que lhe comprassem tintas. E assim começou a pintar, realizando-se quando encontrou em Cachoeira o pintor, fotógrafo e proprietário de ateliê Frederico Guilherme Lobe, com quem passou a ter aulas. Lobe revelava e fazia cópias de fotografias, arte na qual Hilda também se iniciou. E deve ter sido ótima aluna porque quando Lobe foi embora para Porto Alegre, ela assumiu as suas aulas na cadeira de Desenho da Escola Complementar de Cachoeira.


A jovem Hilda Goltz - fototeca Museu Municipal

Por esta época, abriu seu próprio ateliê de fotografia, no sobrado Barcellos, na Rua Sete de Setembro. Dentre a clientela, famílias importantes de então, como os Ilha e os Wilhelm.


Sobrado Barcellos (pertencia à família de David S. de Barcellos)
- fototeca Museu Municipal


Lya, Rolf e Ila Wilhelm fotografados por Hilda Goltz
- fototeca Museu Municipal


Mas Cachoeira era pequena para as pretensões artísticas de Hilda Goltz. Certamente também pequena para a mulher avançada que era, a ponto de escandalizar alguns ao se dirigir sozinha às lavouras de arroz com telas, pincéis e tintas para registrar os trabalhadores... E não conseguiria passar despercebida por ninguém, haja seus quase dois metros de altura...



Hilda Goltz com tela e pincéis
- fototeca Museu Municipal

De Cachoeira seguiu para Porto Alegre e de lá para o Rio de Janeiro, onde foi introdutora e primeira professora da cadeira de Cerâmica da Escola Nacional de Belas Artes da Universidade do Brasil. Em seu ateliê, no bairro de Ipanema, produzia peças que ganharam exposições por todo o país e fora dele. Mais tarde mudou-se para Miguel Pereira, região serrana do Rio, para Brasília e finalmente para a terra natal, onde faleceu aos 101 anos em 12 de outubro de 2009.


Exposição comemorativa do centenário de Hilda Goltz no Museu Municipal

Hilda Goltz ousou ser diferente e associou à sua grande estatura a trajetória de mulher que não se curvou aos ditames do século em que nascera. Venceu-o, ousando ser protagonista na vida e na arte.

Nota: em 2008 o Arquivo Histórico e Museu Municipal lançaram o caderno de história n.º 4 sobre Hilda Goltz, em comemoração ao seu centenário de nascimento, com a participação da homenageada.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Museu no Paço já!

O Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima foi criado com o objetivo de reunir e resguardar objetos, documentos e fotografias que contassem a nossa história. A coleção  inicial foi doada pelo advogado Edyr Lima e a primeira diretora, professora Lya Wilhelm, deu início no já distante ano de 1978 a buscar junto a famílias acervos que pudessem ajudar a compor o panorama histórico do quinto município do Rio Grande do Sul. 

Alguns objetos do acervo do Museu

A premissa era partir do micro para o macrocosmo, ou seja, do objeto em si e da função que ele originalmente tinha para remetê-lo ao contexto histórico em que foi usado, abrindo espaço, logicamente, para ressaltar também o elemento humano que o produziu e dele fez uso. Era uma visão primeira do que hoje se constitui educação patrimonial. D. Lya, altamente qualificada para a proposta, empreendeu ações que até hoje surpreendem pela visão prospectiva! 

Lya Wilhelm

Ao longo dos 38 anos de existência do Museu, o que começou pequeno se tornou grande. A comunidade viu na instituição a oportunidade de perpetuar períodos, fatos e nomes que ajudaram a escrever a história e foi fazendo dela a depositária de suas memórias. 

De uma sede provisória e improvisada - a do Coral Cachoeirense, na Rua Comendador Fontoura - o Museu passou para sua sede própria, ocupando uma interessante casa no coração da Vila Maria, transformada em Parque Municipal da Cultura. Restaurada e adaptada às necessidades do Museu, a antiga casa construída por Engelberth Gottwald, e depois vendida para Aracy Alves e sua família, passou a ser a casa da história de Cachoeira do Sul. Sucederam-se os anos e a ineficiência e insuficiência dos recursos públicos produziu uma situação de vulnerabilidade da casa e, com isto, de risco ao acervo amealhado e tão bem cuidado desde os tempos do garimpo empreendido por Lya Wilhelm e seu quadro de servidores. O patrono Edyr Lima sempre dizia que era guardião de outro grande acervo que já estava destinado ao Museu, mas que não o entregava por saber da falta de espaço...

Sede do Museu - Parque Municipal da Cultura

Agora surge a grande oportunidade de dar ao Museu Municipal o espaço que ele merece e precisa: o restaurado prédio do Paço Municipal. Incapaz de acomodar os setores indispensáveis da máquina pública e atender às exigências das rotinas administrativas modernas, o prédio seria subutilizado e logo sofreria ações de adaptações contrárias ao seu caráter de bem tombado do patrimônio histórico-cultural. 

Pois se o prédio do Museu Municipal não comporta/protege mais o acervo histórico, por que não transferi-lo para o Paço? A lógica e o bom senso estão a dar a resposta. E o futuro provará que a instalação do Museu no Paço finalmente renderá ao município dividendos sobre a sua rica história, além de dar-lhe o valor, a dimensão e o papel que lhe foi atribuído no passado por pessoas que não se satisfaziam com as contingências do presente, mas tinham uma grande visão de futuro. 

D. Lya, em meados da década de 1980, quando o Museu foi transferido para o Parque Municipal da Cultura, dizia que ainda vivíamos tempos de acostumar os visitantes do Zoológico que ele não era a única atração, que havia um Museu a ser visitado também. Será que ultrapassamos esta fase? O processo cultural é muito lento... Mais uma razão para a transferência, pois no Paço o Museu será senhor de si mesmo e terá por companhia ícones poderosos da nossa história, distribuídos na linda Praça Dr. Balthazar de Bem.

Centro histórico na Praça Dr. Balthazar de Bem - foto Renato F. Thomsen

Museu no Paço já!

Veja também:www.pontedepedra.blogspot.com.br

sábado, 28 de janeiro de 2017

O Paço a um passo da ocupação

Os organismos que tratam de patrimônio cultural preconizam que para um bem ser considerado como tal é necessário que a sua conservação seja de interesse público, ou seja, coletivo. Pois o Paço Municipal se enquadra perfeitamente nesta definição desde 1985, quando foi declarado como patrimônio histórico-cultural do município, condição reiterada recentemente quando 1.478 cachoeirenses preocupados com o estado de abandono do prédio clamaram pela sua restauração através de um abaixo-assinado. Outros milhares certamente pensavam da mesma forma, apesar de não terem aposto sua assinatura no documento.

Paço Municipal - foto Cristina da Gama Mór


Vencidas todas as difíceis etapas que precederam o restauro e mesmo as que o acompanharam, o grupo que lidera o Movimento Pró-Restauração do Paço Municipal, apesar dos seus esforços e da liderança que assumiu frente à comunidade e junto ao Executivo, se depara agora com disputas em torno da ocupação do bem restaurado. Antes, quando o prédio estava quase em ruínas, muitas das vozes que agora desejam ocupar seus belos salões foram contrárias ao investimento na obra de recuperação ou ignoraram o processo. Como equalizar estas questões e agregar ao espaço o valor que ele realmente merece depois de ter vivenciado o abandono, o descaso e quase a ruína, respeitando a condição de bem de interesse coletivo?




Parte do grupo do Movimento pró-restauro do Paço
- foto Renato F. Thomsen
              
Voltemos no tempo. Entre 1861 e 1864, anos de execução da obra, sob o comando do empreiteiro/construtor Ferminiano Pereira Soares, cujo rosto é desconhecido, mas a obra não, os esforços para levar a cabo a edificação foram muitos. E muitas também as colaborações espontâneas, história que ora se repete. Naquele tempo, alguns dos vereadores, a começar pelo próprio Ferminiano, também vereador, deram parcelas de contribuição condizentes com suas funções e posses. Ferminiano, proprietário da casa que servia para sessões da Câmara, livrou-a do aluguel enquanto a obra da Casa de Câmara, Júri e Cadeia corresse. Por longos quatro anos Ferminiano não recebeu os valores a que tinha direito pela cessão da sua casa para que os cofres da Câmara pudessem suportar as despesas da construção que lhe eram atribuídas. Da mesma forma o médico e também vereador Juvêncio Cardoso da Cunha deixou de cobrar da Câmara os seus serviços de atendimento aos doentes pobres, assim como fez gratuitamente todas as “bolas” para matar os cães vadios! Outros adquiriram materiais resultantes das demolições de casas que ocupavam o terreno onde o Paço foi construído. Como se vê, a gênese do Paço é um exemplo de desprendimento em prol do interesse coletivo. 150 anos depois a história, simbolicamente, se repete: os cidadãos envolvidos com o movimento pró-restauro emprestam seu conhecimento técnico, sua boa vontade e liderança para verem o velho casarão recuperado em sua beleza e glória. Concluída a obra, é justo que se sintam no direito e na razão de colaborarem e opinarem nas discussões para sua ocupação.

Situemo-nos geográfica e historicamente. O Paço foi construído em terreno fronteiro à Igreja Matriz, na esquina da então rua denominada simplesmente Travessa, no caminho que levava ao arroio Amorim, no lado direito do Teatro “velho”. O poder eclesiástico e o poder civil frente a frente. Enquanto a Câmara não tinha a casa para suas sessões, tampouco o júri e a cadeia, a Igreja servia, muitas vezes, como palco e cenário para acontecimentos da vida política e administrativa. Ainda que com suas diferenças e especificidades, a história aproximava e unia as duas edificações. Até que no primeiro quartel do século XX os avanços sanitários dotaram o cenário dominado pela Igreja e pela Intendência, que era como o Paço então era chamado, de um monumento ao mesmo tempo utilitário e de embelezamento: o Château d’Eau. Pois estes três elementos, circundados por uma praça que se formou e aformoseou o local, tornaram-se um dos mais emblemáticos e imponentes espaços urbanos do Rio Grande do Sul, constituindo o nosso centro histórico.


Praça Dr. Balthazar de Bem fronteira ao Paço - foto Renato F. Thomsen

O Paço a um passo da ocupação: posicionemo-nos. Considerando que a Praça Dr. Balthazar de Bem conjuga três elementos distintos (Catedral, Château d’Eau e Paço) em seus diferentes momentos históricos e funções, todos eles fundamentais para contarem a evolução municipal, e apresenta características arquitetônicas únicas e ao mesmo tempo distintas, sem similares, é imperativo que o Paço seja ocupado por uma instituição cultural que fomente o diálogo entre todos os elementos da praça, conjugando-os em informações histórico-turísticas. Esta instituição cultural é o Museu Municipal de Cachoeira do Sul, cuja história tem se pautado em valorizar os feitos e acontecimentos locais e, dentre valorizá-los, ressaltá-los e difundi-los, conectá-los com os espaços que ainda guardam resquícios históricos.
                
Convençamo-nos que a cultura local e os bens patrimoniais ainda preservados são um tesouro pouco explorado em Cachoeira do Sul. Desperdiçar o potencial da Praça Dr. Balthazar de Bem, ocupar o Paço com setores da administração municipal que podem seguir onde estão e condenar o Museu Municipal ao fechamento pelas deficiências estruturais de sua sede é cerrar as portas para a oportunidade de fruição dos bens que diferenciam e, ao mesmo tempo, dignificam o legado histórico do quinto município mais antigo do Rio Grande do Sul.

 Cento histórico - foto Renato F. Thomsen
              
Defendamos a oportunidade de tornar o nosso centro histórico um centro de referência e de atração de divisas e dividendos. Museu no Paço já! Esta é a melhor forma de vincular ao prédio a sua prerrogativa de bem de interesse coletivo. E não esqueçamos de recuperar a linda casa que ocupa o centro do Parque Municipal da Cultura e talvez almejar para ela, num futuro bem próximo, que sedie a Secretaria Municipal de Cultura e conselhos afins.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sinta-se feliz na Capital do Arroz!

Para quem entra na cidade ligeiramente, talvez aquele painel colocado à direita da Avenida João Neves da Fontoura, já no cruzamento com a Rua Virgílio de Abreu, não chame muito a atenção. Mesmo para aqueles que têm tempo para a leitura da mensagem “Sinta-se feliz na Capital do Arroz”, o monumento não consegue por si revelar, além do simpático gesto de boas vindas, a rica e quase desconhecida trajetória que o forjou. Pois agora, graças às memórias reveladas pela autora do projeto, Mafalda Roso, aquele monumento entrega publicamente a sua história desde a concepção até a execução.




1968: alunas da Escola Superior de Artes Santa Cecília – ESASC, centro de formação para professores de artes plásticas e música que deu profissionais do mais alto gabarito ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, sob a provocação e orientação do professor Cláudio Afonso Martins Costa, que vinha semanalmente de Porto Alegre para lecionar na escola, foram desafiadas a idealizar um monumento que desse as boas vindas aos visitantes de Cachoeira.

Antiga ESASC - atual Casa de Cultura Paulo S. V. da Cunha
- acervo COMPAHC

Segundo Mafalda Roso, Cláudio Martins Costa, com uma voz grossa e uma inflexão sonhadora, propôs a elas, no porão da ESASC (hoje Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha), em suas aulas aos sábados, um concurso para elaboração de um painel de boas vindas à cidade. Desafio aceito, as alunas debruçaram-se sobre a tarefa que constaria de um projeto desenhado em papel, depois transposto para a argila e finalmente para o cimento. A ideia deveria ser inspirada no tema “Nossa Cidade” e contemplar uma dimensão de sete metros de largura por três de altura. O prazo para apresentação do trabalho: um mês. A vencedora, além de prêmio da Casa Augusto Wilhelm, perpetuaria seu trabalho em um monumento para a cidade.

Depois de muito trabalho e da natural expectativa, quando as alunas se jogaram nas pranchetas de 0,70 X 0,30 cm mandadas fazer especialmente para projetarem em desenho o painel, finalmente chegou o dia do julgamento, sendo considerado vencedor o projeto de Mafalda Pedroso de Moraes (Roso), ficando em segundo lugar o de Maria Lúcia da Gama Mór (Castagnino).

Projeto classificado em segundo lugar - autora: Maria Lúcia Mór

Os elementos utilizados por Mafalda para compor o projeto vencedor foram, conforme suas palavras: "Primeiro: o Homem como centro e domínio da cena. A figura humana me fascina sempre! E este homem era o povo da minha cidade. Depois surgiu a ideia da indústria, Mernak, e que se tornou a roda da engrenagem. E juntei homem e roda. O homem tocando a roda do progresso. Os outros elementos vieram: o gado, a pecuária, no simbolismo da cabeça de um boi; o arroz, éramos a capital do arroz e o cereal não poderia deixar de ser um dos elementos presente ao projeto. Trigo, produzimos trigo. Duas carreiras de arroz e duas carreiras de trigo. A cidade em si: casas e telhados. E os engenhos? Suas chaminés! Como formas geométricas que sempre acompanham meus trabalhos. E não poderia faltar a frase: Sinta-se feliz na Capital do Arroz! Esta frase, escrita assim, só surgiu quando os projetos já estavam prontos. No meio do processo visitamos uma fazenda produtora de arroz para ter ideias e finalizar os trabalhos.”

A próxima etapa foi a difícil execução do painel. Todas as alunas participaram da empreitada: executar o projeto de Mafalda sobre uma “prancheta” gigante inclinada, com as medidas reais do monumento em uma sala exígua... Sobravam apenas 60 centímetros para o trânsito na sala de aula, sendo que do teto a “prancheta” guardava uma distância de apenas 40 centímetros! Cerca de 6.000 a 7.000 quilos de barro, fornecido pela Olaria Kipper, foram utilizados para materializar o projeto. "(...) e foi nesta placa de barro que elaboramos o desenho. (...) Fizemos isso até nas férias de nosso professor e nas nossas também! A partir de então, foram todos os dias até o final de fevereiro. Não arredamos pé, todas nós ficávamos trabalhando até praticamente terminarmos o painel em barro.”

O modelo para a escultura do corpo da figura humana que domina o painel foi Itamar Saraiva, namorado da aluna Giceli Ribeiro e funcionário da Casa Augusto Wilhelm. Seu nome foi indicação de Erwino Wilhelm, proprietário da loja e parceiro do projeto de execução do monumento. E foi nesta ocasião que veio de Porto Alegre, a convite do amigo Cláudio Martins Costa, o renomado artista plástico espanhol Fernando Corona. Sobre ele Mafalda Roso conta: "Corona sempre foi um nome forte como escultor, arquiteto, ensaísta, ornatista, crítico de arte e professor no Belas Artes em Porto Alegre! Aquele velhinho de cabeça branca foi um exemplo de tenacidade e determinação! Lembro que olhou muito meu projeto, fez algumas observações quanto ao meu trabalho e subiu na escada. Deitado sobre uma delas ele esculpiu a cabeça da figura humana. Começou pela manhã, paramos ao meio dia de um quente e abafado sábado para o almoço. Professor Corona lavou o rosto no tanque da sala de escultura, pois estava muito suado e saiu para almoçar com Dona Vera Beatriz Machado de Freitas e professor Cláudio. Voltaram duas horas depois e Corona retomou seu posto. Por várias vezes, Cláudio pediu para que ele parasse, pois era quase insuportável o calor naquele porão. Mas Corona não parava. Trabalhou até o final da tarde e ainda continuou no domingo pela manhã, quando deu por terminada esta participação inesquecível e que minha memória ainda não apagou. A imagem de Corona ficou em mim. Corpo pequeno e uma cabeça um pouco maior que a proporção que ele buscava para esculpir no painel, sobrancelhas e voz marcante, sério, intempestivo e ciente de sua posição como escultor." 

Vencida esta etapa, a "prancheta" transformou-se num verdadeiro quebra-cabeças composto de peças em gesso e cimento. "Nesse primeiro momento participei muito", diz Mafalda. A divisão do painel teve que ser feita em peças que não ultrapassassem 70 centímetros para que o peso não fosse demasiado e facilitasse o manuseio. "Fomos cortando o painel com tiras de alumínio e formando blocos para a posterior colocação do gesso. Eram separadas e com um espaço de borda para manter a parte da base com a mesma espessura. Dessa maneira, seria possível o encontro de uma peça com a outra. Não lembro o número exato, mas sei que ficaram entre 93 a 96 peças! Aos poucos, o gesso foi colocado sobre as peças e, quando estava endurecido, a parte em barro era retirada para que a prancheta pudesse sustentar o peso. Neste momento verificávamos se a peça tinha conseguido reproduzir fielmente a escultura do barro! Cada fôrma em gesso tinha um número que havia sido determinado no meu desenho para que não perdêssemos o quebra-cabeças gigante que se formou no conjunto de todas elas. Meu desenho do painel foi levado junto até a sua colocação no muro e eu nunca mais o vi."

Mafalda, em um exercício de memória que ela associou a uma esponja espremida em que sempre sobra uma gota d'água, retoma os intensos trabalhos daqueles dias: "Demorou um tempo de mais ou menos 20 dias para que esta fase fosse concluída. Começaria então o trabalho mais pesado que alguém possa imaginar. Cada fôrma em gesso era calçada com tijolos e pedras e novamente com tiras de alumínio para que o preenchimento das peças com o cimento não escorresse e desnivelasse o painel! Trabalho duro e grotesco, pois qualquer descuido com as peças poderia pôr a perder a forma escultórica do conjunto. O professor Cláudio comandou todas estas etapas e em vários momentos fui chamada para olhar e revisar cada uma das peças. Passaram-se meses e finalmente o painel foi montado pela primeira vez para o 1.º Festival de Artes de Cachoeira do Sul, no prédio em construção da Galeria Honorato de Souza Santos. Ele foi levado na própria prancheta na qual havia sido esculpido. Na inauguração deste festival foi registrada a presença do governador Walter Peracchi Barcelos e esposa. Recebi, ao final do festival, o Troféu Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, pelo trabalho do painel, troféu este que me foi entregue pelo Presidente da Assembleia Legislativa, na época, deputado Otávio Germano. Pelo fato de ter sido trabalhado por mim e minhas colegas de faculdade, o troféu foi deixado no gabinete da direção da Escola de Artes Santa Cecília. Depois, foi contratada uma empresa de Porto Alegre para a colocação definitiva do painel no muro, no qual se encontra até os dias de hoje."


Mafalda com o troféu entregue pelo deputado Otávio Germano - acervo pessoal
O governador Walter P. Barcelos e esposa na exposição do painel
- acervo pessoal Mafalda Roso

As alunas executoras do painel em sua formatura - acervo pessoal

A história da colocação do painel “Sinta-se feliz na Capital do Arroz” ainda precisa ser levantada, assim como precisa ser avaliada a sua manutenção e a proteção que necessita como patrimônio cultural legítimo, fruto de um trabalho que só foi possível graças à instituição de ensino/vivência das artes que era a ESASC. E como falar da ESASC sem citar sua grande mentora, a professora e pianista Rita de Cássia Fernandes Barbosa?

As memórias de Mafalda Roso são como uma lufada de vento que sacudiu as folhas amareladas pelo tempo, revelando as letras de um texto esquecido nos porões da velha escola...


Agradecimentos especiais a Mafalda Roso e Marô Silva.