Espaços urbanos

Espaços urbanos
Catedral em festa - foto Renato F. Thomsen

domingo, 10 de dezembro de 2017

160 anos da imigração alemã - uma justa lembrança!

Há exatos cento e sessenta anos chegavam a Cachoeira os primeiros imigrantes alemães. A sensação da chegada deve ter sido de estupefação, não apenas pela maneira quase trágica de seu desembarque às margens do rio Jacuí, mas também pela paisagem e perspectivas que se descortinavam.

Logo depois da Independência do Brasil, o Imperador Pedro I, incentivado pela imperatriz D. Leopoldina e ciente da necessidade que o país tinha de elemento humano para auxiliar no povoamento de tão extenso território, promoveu a vinda de súditos alemães, oferecendo-lhes terras e meios para delas tirarem o seu sustento. Em contrapartida, essas áreas acelerariam o seu processo de desenvolvimento social e econômico.

D. Leopoldina e D. Pedro I - www.rodrigotrespach.com

Em Cachoeira, as tratativas para a chegada de alemães tiveram início com a determinação do presidente da Província do Rio Grande de São Pedro, Manuel Antônio Galvão, de que a Câmara Municipal informasse qual o local mais apropriado para instalar os colonos. Em julho de 1847, a comissão formada para decidir a questão, composta por Hilário Pereira Fortes, João Teixeira de Carvalho e Silva e Bento Antônio de Moraes, comunicou às autoridades que na margem esquerda do rio Jacuí, no lugar denominado Cerro Agudo, havia matos devolutos, com terras próprias à agricultura e para estabelecimento de uma colônia. A resposta foi encaminhada à Província... Mas dez longos anos se passaram.

Cerro Agudo - Imagem: ACISA

Retomadas as negociações, em julho de 1857 a Câmara de Cachoeira foi autorizada a contratar um agrimensor, Frederico Guilherme Wedelstaedt, para medir as terras e escolher o local para construção do barracão para alojamento inicial dos colonos. A futura colônia receberia o nome de Colônia Santo Ângelo, em homenagem ao Presidente da Província, Ângelo Muniz de Ferraz.

Finalmente, em 1º de novembro de 1857, o primeiro grupo de imigrantes, oriundos da região da Pomerânia, chegou ao local determinado. Embarcados no porto de Hamburgo, ao saberem estar perto do local de desembarque, tinham a expectativa de avistar o “porto da Colônia”. Logo perceberam que não existia porto algum... Decepcionados, quiseram desistir e voltar. Mas o cansaço da viagem e a ilusão da “terra prometida” fizeram-nos descer do vapor D. Pedro e dar uma espiada no lugar. Viram apenas mata fechada e não puderam divisar o horizonte. Desolados, voltaram para o vapor e, surpresa maior, verificaram que o barco zarpara, deixando descarregadas suas bagagens.

Cais do porto de Hamburgo no século XIX - http://www.sundfeld.meiovirtual.net

Aqueles desavisados primeiros alemães eram das famílias de Franz Pötter, August Pötter, Julius Neujahr, Daniel Fiess, Wilhelm Holz e Peter Finger. Um segundo grupo de colonos chegou em 25 de novembro de 1857, permanecendo alguns dias na Vila de Cachoeira à espera de conduções para chegarem à colônia. Era constituído de treze famílias: Roggenbach, Bartz, Streeck, Fenner, Leusin, Wilke, Roos, Laasch, Ritter, Seubert, Becker, Graffunder e o solteiro Herrmann Raatz. O terceiro e último grupo a chegar, conduzido pelo Barão von Kalden, era composto por alemães que tinham lutado pelo Império Brasileiro – os “Brummer”- na guerra contra o ditador argentino Rosas. Eram eles: August Brendler, Heinrich Haidmann, Wilhelm Köhn, Heinrich Eckert, Karl Koblens, Karl Homrich, Heinrich Ehlers, Wilhelm Buckow, Luiz Berger e Luiz Zimmermann.

Barão von Kalden - Editora Werlang

Pedro Rockenbach, menino alemão que vivenciou a mudança para o Brasil, deixou relatadas as situações acima descritas. Ao segundo grupo de colonos ele atribuiu mais sorte, porque quando chegou o barracão já estava erguido, embora ainda sem divisórias e aberturas. O terceiro grupo, composto por homens que estavam acostumados às aventuras na América, foi mais previdente: veio a cavalo para verificar a situação antes de se estabelecer.

Cento e sessenta anos depois, a antiga Colônia Santo Ângelo desmembrou-se em vários municípios, todos jovens ainda, mas com uma rica cultura alicerçada no trabalho e nas tradições de homens e mulheres que trouxeram da Europa um modo de vida que imprimiu diferenças significativas a este pedaço do Brasil. Quanto a Cachoeira, cujas terras abrigaram a Colônia Santo Ângelo, muito proveito obteve da imigração e deve aos sobrenomes alemães muitos de seus principais impulsos.

A todos os descendentes destes bravos: Ein Prosit!

domingo, 26 de novembro de 2017

Série Empreendedores do Passado: Otto Mernak

A Série Empreendedores do Passado inaugura com o alemão Otto Mernak, natural de Chemnitz, na Saxônia, e que chegou em 1903 ao Rio Grande do Sul, fixando-se em São Leopoldo. Em 1912 veio para Cachoeira, onde abriu oficina mecânica e fundição em um galpão defronte à Estação Ferroviária.


Otto Mernak com a esposa Maria e os filhos Curt, Ernesto e Rosinha

A oficina de Otto foi convenientemente instalada na região que no início do século XX podia ser considerada a zona industrial da cidade, que era justamente a que rodeava a Estação. Seu negócio não ficou isolado, mas em posição estratégica que lhe permitia o convívio com engenhos de arroz e outros empreendimentos que se serviam da ferrovia para recebimento e escoamento de mercadorias. E poderiam lhe oferecer muitos serviços... 

Estação Ferroviária cercada pelos engenhos de arroz - fototeca Museu Municipal

Com trabalho constante e esforçado, tornou-se um dos mais bem sucedidos industriais de Cachoeira e a empresa fundada por ele, a Mernak S.A., chegou a ser a maior fabricante de locomóveis e caldeiras da América do Sul, abastecendo o mercado interno e externo.

Locomóvel em fotografia de janeiro de 1952 - Acervo Família Mernak

Uma matéria publicada no jornal O Commercio, de 25 de junho de 1919, dá a dimensão do quanto “o operoso industrialista Otto Mernak” estava fazendo história em seu ofício:

"A convite do operoso industrialista, Sr. Otto Mernak, fomos (…) apreciar o trabalho de fundição de ferro na bem montada oficina estabelecida nas imediações da estação ferroviária.

Cartão da Oficina Mecânica e Fundição de Otto Mernak
- Acervo Família Mernak

O Sr. Otto Mernak aqui chegou em setembro de 1912, começando uma oficina mecânica e de fundição, em proporções modestas, que era localizada num armazém de tábuas.
        
Ultimamente, porém, a casa tornou-se insuficiente para conter ampliações que a crescente afluência de trabalho estava a exigir, e o Sr. Mernak tomou e executou a resolução de construir um prédio de material, de 35 metros de comprimento por 10,60 de largura, no qual funcionam, há pouco mais de um mês, as novas e aumentadas oficinas.

Oficinas de Otto Mernak (1922)
- Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

- Podemos fazer tudo o que concerne ao ramo, disse-nos o Sr. Mernak – e, se não fora a escassez atual do ferro em lâminas, até locomotivas para a Viação Férrea poderíamos construir.

Vimos bombas para empresas arrozeiras e peças avulsas para as mesmas (curvas, etc.) prontificadas na fundição, peças novas para motores e, no galpão, trilhadeiras e locomóveis compostas e a compor.

Interior da oficina mecânica e fundição - Arquivo Família Mernak

22 operários exercem ali a sua atividade, sob a direção dos Srs. Otto Mernak e Leopoldo Dill, sendo que este último entrou recentemente a fazer parte da direção e é interessado na indústria, como sócio.

Uma locomóvel de oito cavalos trabalha durante o dia inteiro, fornecendo força motriz às máquinas e acionando também um dínamo que fornece luz elétrica ao estabelecimento.

Dentro da oficina existe um compartimento especial para a confecção de modelos de madeira destinados aos trabalhos de fundição, no qual trabalham, ininterruptamente, dois hábeis marceneiros.

O prédio, não obstante sua amplitude, é construído de modo a poder facilmente sofrer algumas ampliações, se o futuro torná-las necessárias.

A fundição atual é, decerto, um belo resultado do esforço do Sr. Otto Mernak, um trabalhador de rija têmpera e que há de olhar com íntima satisfação para a sua obra."

A matéria do jornal demonstra a pujança do negócio de Otto Mernak, especialmente em tempos recém-saídos da I Grande Guerra, fator indiscutível de inibição dos empreendimentos.

Vencida a Primeira Grande Guerra, Mernak continuou a expansão da sua indústria até que a morte o colheu em uma viagem de passeio à Alemanha no dia 23 de junho de 1935. O vínculo estabelecido com Cachoeira não se dissipou com a morte. Tempos depois os seus despojos foram trazidos para a cidade que o acolheu e repousam no Cemitério Municipal em imponente túmulo.

Cemitério Municipal - 1955 - Acervo Família Mernak

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

João Neves da Fontoura - 16/11/1887 - 16/11/2017 - 130 anos

“Na minha terra sempre houve, outrora, duas armas irresistíveis – a eloquência e o cavalo."
                                                                                                                      João Neves da Fontoura


João Neves da Fontoura - 1933
- Coleção Saul Rosa Garcia

Esta frase define os dois tipos de homens do Rio Grande. João Neves da Fontoura, nascido em Cachoeira a 16 de novembro de 1887, entre as duas armas irresistíveis, escolheu para a sua vida a da eloquência.

O pai, Coronel Isidoro Neves da Fontoura, era a maior liderança política de Cachoeira no final do século XIX, início do século XX. Ao contrário do filho, Isidoro era homem de poucas palavras, muita ação – e imposição. João Neves parece ter incorporado as características de mando do pai, especializando-se na eloquência.

Borges de Medeiros e o Cel. Isidoro Neves
- Fototeca Museu Municipal

Muito jovem, pelas páginas do jornal republicano Rio Grande, começou a exercitar o dom da escrita. Até Cândida Fortes Brandão, sua professora por pouco tempo na formação inicial, foi vítima de suas ferinas palavras, que se defendia atacando-o em artigos no O Commercio.

A eloquência, a formação acadêmica e os conselhos de Borges de Medeiros fizeram-no crescer na política, onde galgou importantes postos, e na literatura, com a conquista de cadeiras na Academia Rio-Grandense e Brasileira de Letras.

Com o fardão da Academia Brasileira de Letras
- Fototeca Museu Municipal

Cachoeira deve muito ao filho ilustre, empreendedor de uma verdadeira transformação urbana. São obras de sua administração altos investimentos em saneamento, o que na década de 1920 era um salto para o futuro, e no embelezamento da cidade.


João Neves no discurso de inauguração da Praça Borges de Medeiros - 1927
- Fototeca Museu Municipal

As palavras de Barbosa Lima Sobrinho, advogado, ensaísta, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, sintetizam o perfil do grande João Neves da Fontoura:

“Tudo em João Neves era ação. Sua oratória, desprezando artifícios e babados, era, antes de tudo, ação política, como o seu jornalismo, os seus livros, como as suas dissertações de memorialista.”

O velho Coronel Isidoro deixou no filho a sua marca. E João Neves soube aperfeiçoar a herança paterna com a sua capacidade de articulação. Ambos entraram para a história, e como convêm ao mestre e ao pupilo, o filho suplantou o pai.

domingo, 12 de novembro de 2017

Um Comitê Sírio-Libanês em Cachoeira

A partir do início do século XX, pela existência do jornal O Commercio, é possível verificar a presença crescente de estrangeiros oriundos do chamado Oriente Médio, genérica e equivocadamente tratados aqui por “turcos”*.

Dentre esses imigrantes, muitos deles dedicados ao ofício de mascates, ou seja, vendedores ambulantes de todo tipo de mercadorias, há o registro de muitas famílias que se estabeleceram principalmente na Rua 15 de Novembro e imediações.

Uma notícia do O Commercio de 28 de janeiro de 1920 refere a eleição da nova diretoria do Comitê Sírio-Libanês, dando mostras que a comunidade já então grande, começava a se organizar em associação. Diz a notícia:

No dia 25 de janeiro, às 4 horas da tarde, esta sociedade local efetuou, no salão da Associação Comercial, uma sessão ordinária a fim de eleger a nova diretoria que deverá reger os seus destinos durante o corrente ano. A nova diretoria ficou assim constituída: presidente honorário Dr. Balthazar de Bem, reeleito; presidente Haguel Botomé, reeleito; vice-presidente Badi Ache, reeleito; 1.º secretário Nagib Mahfuz, reeleito; 2.º secretário Antonio Marin, 1.º tesoureiro João Moyses, reeleito; 2.º tesoureiro Calil Elias, reeleito. Conselho deliberativo: Elias de Mettri Fares Mogarbel e Antonio Aude; comissão: Elias Raful, Leonel Elias e Antonio Siade; porta-estandarte Bechara Amin; tradutor Felicio Forzen (juramentado). Conhecido o resultado, a nova diretoria foi saudada com uma entusiástica salva de palmas.

Haguel Botomé e sua família - Grande Álbum de Cachoeira
- de Benjamin Camozato (1922)

Restabelecido o silêncio, usou da palavra o Sr. Presidente, produzindo ponderado discurso, que durou 20 minutos e do qual damos um pálido resumo.

Começou o orador agradecendo aos seus compatriotas pela elevada prova de confiança que lhe davam, reelegendo-o para o cargo de presidente pois, em razão de seus muitos afazeres, desejava ser um sócio infatigável, mas não presidente. (...) Fez um rápido histórico da associação até esta data. Disse mais que alguns dos sócios pediram, na última sessão, fosse mudado o nome de Comitê Patriótico para o de Beneficência, que em nada influía o nome, pois por ventura não tinham contribuído todos os membros, tanto social como particularmente, tanto quanto lhes era possível para minorar os sofrimentos dos desprotegidos da sorte, tanto de sócios, como de outros desventurados, que o não são? Acrescentou que deviam os sócios, na próxima sessão, atender à discussão do requerimento enviado pelo sócio Bechara Amin a fim de nomear um médico, uma farmácia e um advogado para a sociedade. 

Terminou o orador pedindo a todos darem um viva à gloriosa, culta e grande nação brasileira, viva que foi entusiasticamente correspondido.
Cachoeira, 28 de janeiro de 1920.
F.

A diretoria do comitê era composta por nomes que fizeram história no comércio, caso do presidente Haguel Botomé, libanês que era o proprietário da Casa da Bandeira Branca, na Rua 15 de Novembro; Badi (ou Bady) Ache, dono da casa comercial A Montevideana, na Rua 7 de Setembro, logo depois vendida para Haguel Botomé; e Calil Elias, sírio, dono da loja O Barco, de fazendas, miudezas, secos, molhados e gêneros coloniais, no Alto dos Loretos, e depois instalada na Rua Saldanha Marinho lá por 1918.

Anúncio da Casa da Bandeira Branca
n'O Commercio, 1/2/1928

No ano anterior, O Commercio, além de constatar que o comitê reunia todos os elementos de valor da colônia, havia se incorporado à vida social da cidade, comungando das festas cívicas, sendo por isso amparado com simpatia pelo povo cachoeirense.

Os sírio-libaneses, assim como outros imigrantes vindos antes e depois, enriqueceram ainda mais o rico mosaico étnico que caracteriza a história de Cachoeira do Sul.

*Turcos: eram assim denominados todos os imigrantes que portavam documentos emitidos pelo Império Turco-Otomano ao chegarem no Brasil.

domingo, 29 de outubro de 2017

Passo do Seringa

A zona rural de Cachoeira do Sul é ainda bastante extensa, apesar de todas as emancipações de antigos distritos. Áreas produtivas e importantes para a economia e a história local, estes lugares guardam suas peculiaridades, histórias, personagens. Uma destas localidades é o PASSO DO SERINGA, localizada na margem direita do rio Jacuí e hoje amplamente conhecida pelos balneários que oferece, assim como provas de motociclismo na terra. 

O jornal O Commercio, edição de 29 de outubro de 1930, traz uma matéria versando sobre o lugar, com curiosidades e detalhes interessantes e únicos, a começar pelo ditado: “Quem beber as águas do Seringa não poderá mais dele sair!”

Diz O Commercio:

Na margem direita do rio Jacuí, a poucos metros de porto que lhe dá o nome, está situada a povoação do Passo do Seringa.

Entardecer no Seringa - foto MVMSilva - Panoramio

Seringa, como o chama a maior parte do povo, é um lugar pequeno, na verdade quanto ao número de habitantes, mas que abriga durante o tempo da safra, espalhados pelas diversas empresas arrozeiras, alguns milhares de jornaleiros*. Povo ordeiro, cavalheiresco e muito amante de novidades.

É comum ver-se, aos domingos, grupos bem montados que primam, sobretudo, pelo esmero e aprumo com que encilham seus cavalos fazerem corso desde a Palmeirinha até ao porto do rio.

Chapéu grande, lenço verde ou encarnado ao pescoço, bombacha larga, bota, espora fazem-nos gaúchos perfeitos. Povo de espírito empreendedor, não faltou quem lembrasse a organização de um semanário, ainda que impresso à máquina de escrever, para trazer os habitantes informados dos acontecimentos que interessam ao povoado. Desnecessário será dizer que essa ideia foi imediatamente afastada, pois o falado semanário, em caso de aparecer, seria fadado a andar com o serviço de informações sempre atrasado em vista da existência de uma dúzia de desocupados que com a rapidez só peculiar dos rádios, encarregam-se de veicular quaisquer notícias acrescidas a seu modo a todos os recantos do lugar.

Dois caminhões de passageiros que fazem a linha de Cachoeira a Santana da Boa Vista em viagens semanais, com parada aqui no povoado e o vai-vem de autos levando visitantes ao Dr. Borges de Medeiros no seu retiro de Irapuazinho, tudo isto, em certos dias, empresta ao Seringa um aspecto dos grandes povoados. Mais intenso seria o movimento de viandantes se as estradas fossem boas, pois, apesar de ser o entroncamento das que ligam Cachoeira com Santana da Boa Vista, Caçapava e outras localidades, apesar ainda das insistentes reclamações dos seus moradores, no que diz respeito a esse ponto, viveu-se longo tempo esquecido por parte de quem, de direito, devia tomar providências para os devidos reparos. Hoje, finalmente, o mui digno edil major José Carlos Barbosa, lançando um olhar de soslaio, compreendeu a necessidade do povo e tomou as providências que o caso exigia, achando-se elas agora, com restrição de alguns valos que a atravessam totalmente, em bom estado. Para o transporte de uma a outra margem do rio, tanto de cargas como de passageiros, o serviço é feito regularmente por duas barcas puxadas por um rebocador movido a óleo.

Dr. Borges de Medeiros
- Fototeca Museu Municipal
José Carlos Barbosa
- Intendente 1928-1930
- Fototeca Museu Municipal

Além de um bom número de casas de moradia construídas de material e com seus pomares caprichosamente cuidados, possui o povoado duas bem montadas casas de negócio, a varejo e por atacado. Para as doenças, não se tratando de um caso que requeira os cuidados de um profissional, não é preciso apelar-se para Cachoeira, pois Passo do Seringa dispõe de um bom médico homeopata que em vários casos tem empregado a sua atividade com acerto. Não falta também uma pequena hospedaria, onde encontrará abrigo o viajante que ali chegar à noitinha e não quiser sujeitar-se a pagar passagem sem tabela que, nesses casos, fica ao critério dos barqueiros.

Como de quase todas as povoações também do Passo do Seringa conta-se alguma particularidade. Por exemplo: é crença comum entre os moradores que uma pessoa tendo fixado residência e depois querendo mudar-se, poderá fazê-lo, mas, mais cedo ou mais tarde, concluirá por novamente transferir-se ao lugar. Daí o ditado que hoje perambula: quem beber as águas do Seringa não poderá mais dele sair.

Uma ferraria, uma carpintaria, um açougue, uma aula pública e outra particular, um bem organizado Clube de Futebol, eis a que se restringe a florescente povoação do Passo do Seringa.
O mendigo do amor,
20/10/1930.

A descrição feita pelo “Mendigo do amor”, rica em detalhes, revela diversos aspectos de uma das tantas localidades que compõem o grande município de Cachoeira do Sul e que igualmente tem suas histórias, seus personagens, sua importância no panorama social, cultural e econômico.

Barca no Passo do Seringa - 1961 - Acervo Iara Ribeiro
- Gentileza Prof. Edson Souza
* Jornaleiros: diaristas.

domingo, 15 de outubro de 2017

80 anos da Igreja Santo Antônio

O arrabalde da cidade conhecido como potreiro Fialho nunca mais foi o mesmo desde que os padres redentoristas conquistaram um terreno para nele construírem uma igreja em louvor de Santo Antônio.

Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

Convidados por D. Miguel de Lima Valverde, primeiro bispo de Santa Maria, alguns redentoristas chegaram em Cachoeira no dia 18 de novembro de 1921 para estudarem a possibilidade de fundar na cidade uma missão e, quem sabe, uma igreja. Foram recebidos e hospedados em uma pequena casa junto à Capela de São José, no Alto dos Loretos, onde ficaram por um tempo, transferindo-se depois para o prédio do Império, proximidades da Praça Almirante Tamandaré, hoje Dr. Balthazar de Bem.

Capela São José (demolida) - Alto dos Loretos
- Fototeca Museu Municipal
Império do Espírito Santo - Praça Almirante Tamandaré
(hoje Dr. Balthazar de Bem)- Fototeca Museu Municipal

Enquanto se movimentavam em seu afã de fixarem a congregação em Cachoeira, obtiveram junto aos descendentes de Antônia Carolina Fialho um terreno no recém-aberto Bairro Fialho para dar início à construção de um convento e futura igreja. O ano era 1927. Dois anos depois foi inaugurada a capela que se tornou pequena para o crescente número de fieis que frequentavam com assiduidade as celebrações religiosas.

D. Antônia Carolina Fialho - Antoninha
- Fototeca Museu Municipal

Em 6 de agosto de 1933 foi lançada a pedra fundamental da Igreja Santo Antônio, mesmo nome da capela junto ao convento. A construção seguiu projeto do arquiteto alemão José Lutzenberger, em estilo barroco bávaro, e foi executado pelo construtor José Stammel.

Projeto da Igreja Santo Antônio assinado por José Lutzenberger
- Acervo da Igreja
Construção da Igreja - Fototeca Museu Municipal

Ainda inconclusa em seu detalhamento arquitetônico, a Igreja Santo Antônio foi inaugurada em 31 de outubro de 1937, durante a festa dedicada a Cristo Rei.

Enquanto a igreja estava sendo construída, também o bairro passou por transformações. Com ruas abertas e macadamizadas, casas começaram a ser erguidas, fazendo companhia, ainda que esparsa, ao Colégio Imaculada Conceição, educandário estabelecido no local em 1927 pelas irmãs da Congregação de Santa Catarina, também originárias da Alemanha. A assistência espiritual ao colégio era prestada pelos padres redentoristas, cuja ação se estendia à Capela de São José, às colônias e ao Hospital de Caridade, local onde também as irmãs de Santa Catarina prestavam serviço.

Colégio Imaculada Conceição (atual Totem) - Acervo Ilsa Ribeiro


Hoje a Igreja Santo Antônio é a principal referência do bairro de mesmo nome. Os padres redentoristas não estão mais na cidade, mas seu legado religioso segue inesquecível, basta atentar para a joia arquitetônica que ergueram num local que, segundo relatos, era dominado apenas pelo coaxar dos sapos.

Igreja Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

domingo, 1 de outubro de 2017

O irregular calçamento do Bairro Rio Branco

Seguidamente alguém questiona o porquê do calçamento de algumas ruas do Bairro Rio Branco ser feito com pedras irregulares e tão diferentes dos tradicionais paralelepípedos. Pois as pedras diferentes, em que pese serem alvos de críticas por sua irregularidade, são resultado de um momento histórico ímpar, quando empreendimento público, condições climáticas e solução caseira fizeram parte de uma importante decisão política.

Corria o ano de 1927. Cachoeira nunca havia vivenciado tamanha revolução urbana. As principais ruas e praças viraram verdadeiros canteiros de obras. O resultado da azáfama estava surgindo a olhos vistos. A Avenida das Paineiras não era mais dessas velhas árvores. Tipuanas jovens tomavam os canteiros da nova e belíssima Praça José Bonifácio. Cercadas por delicados anteparos de madeira, necessários para o seu crescimento seguro, as jovens árvores seriam a moldura de uma praça com balaústres, bancos, floreiras e luminárias de primeiro mundo. As calçadas estavam sendo cobertas com um mosaico de padrão especial, cujo nome adotado foi apropriadamente "Cachoeira", pois cobria grandes extensões de passeios na cidade que se renovava sob a batuta de João Neves da Fontoura. Os paralelepípedos cobriam a velha poeira da Sete e de outras ruas. As pedras, vindas de Porto Alegre, chegavam às toneladas no porto.

Novo aspecto da Rua Sete de Setembro com as obras de urbanização
- Fototeca Museu Municipal

Mas veio a estiagem. A seca se anunciava nas águas baixas do Jacuí. As grandes chatas carregadas de paralelepípedos pesados tiveram que interromper a viagem de Porto Alegre a Cachoeira, pois o risco de encalharem nas águas diminuídas era grande.

Chegada de paralelepípedos no porto - Acervo Joaquim Vidal

João Neves discutia com seus assessores diretos que não era possível interromper as obras. Tinha planos para encerrar o ano com todas as melhorias concluídas. 1928 seria ano de finalização de mandato e de outros voos. As grandiosas obras de urbanização que ele herdara – e tocara tão bem – do velho Chico Gama, tinham que ser concluídas! Não havia espaço para atrasos. Que maçada a dificuldade de trazer os paralelepípedos! Havia ainda muito trabalho de calçamento a ser feito, especialmente no ainda jovem Bairro Rio Branco. Eis que alguém anuncia duas pedreiras da cidade que poderiam fornecer o material necessário.

Santiago Borba, um construtor, e Dr. Paulo Felizardo, engenheiro, haviam iniciado a exploração de duas pedreiras, uma localizada próximo da Estação Ferreira e outra no lugar chamado Enforcados. Consultado o diretor das obras municipais, Dr. Acylino Carvalho, João Neves resolveu empregar a pedra destas pedreiras nos calçamentos por concluir.

Estação Ferreira - Acervo COMPAHC

No entanto, as pedreiras locais não tiveram capacidade de vencer a encomenda, de forma que algumas poucas ruas foram calçadas com o “meláfiro preto de grande dureza”, dentre elas algumas de pouco trânsito no Bairro Rio Branco, local quase que exclusivamente composto por casas residenciais. As obras de calçamento foram contratadas pela Intendência na forma de pequenas empreitadas e solucionaram momentaneamente a interrupção do fornecimento de material por via fluvial, garantindo que a grande obra de urbanização e modernização da cidade não fosse interrompida com prejuízo às finanças e aos anseios da municipalidade.

Uma das obras de calçamento no Bairro Rio Branco - Acervo Coralio Cabeda

Como se vê, as pedras irregulares e escuras do Bairro Rio Branco são, muito antes do que um incômodo ao trânsito – uma lição do passado. Traduzem em sua irregularidade o regular uso das finanças públicas, do potencial local e o cumprimento de promessa política. Algo raro e absolutamente irregular nos nossos tempos!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cachoeira às portas da Revolução Farroupilha

Corria o ano de 1835. A sede da Vila Nova de São João da Cachoeira experimentava seus primeiros quinze anos de emancipação da vizinha Rio Pardo. Tinha atravessado breves tempos pacatos, enfrentado as agitações do primeiro quartel do século XIX e vivia naquele ano os sinais de um tempo que anunciava dificuldades.

A dita área urbana, arremedo de cidade, vivia ao redor da Igreja Matriz, maior edificação da época e a mais importante. Próximo dela, na antiga Praça do Prestes, erguia-se a rivalizar com o templo religioso, o templo das artes: o audacioso Teatro Cachoeirense.  Iniciativa da classe caixeiral – como prova da força do comércio na economia de então - dispunha de incríveis 500 lugares! Na outra ponta da vila, estava demarcada a Praça do Pelourinho, ladeada por sangas. A Lava-pés, como bem diz o nome, oferecia suas águas para que os viajantes limpassem os pés antes de adentrar no recinto da vila, dirigindo-se pela Rua do Loreto ou pela Rua da Igreja, ou buscando as ruas do Paulista, de Santo Antônio, do Cardoso, chegando às travessas do Soeiro para, quem sabe, finalizar na dos Pecados...

Teatro Cachoeirense - foto do final do século XIX
- Fototeca Museu Municipal

A principal casa comercial pertencia a Antônio Vicente da Fontoura e um italiano de nome Estevão Lombardo, segundo a pesquisadora Ione M. Sanmartin Carlos, provavelmente o primeiro a aportar em Cachoeira, mantinha uma casa de fazendas e quinquilharias bem promissora. Como dizia Aurélio Porto, Cachoeira era “a cabeça de uma vasta região” e rota para atingir diferentes plagas, razão de ser um importante entreposto comercial e de atrair interessados em investimentos, como Joaquim Barcelos, Antônio Joaquim Barbosa e João Teixeira de Carvalho, que solicitaram à Câmara, naquele ano, licença para abertura de casas de negócio.

Outros profissionais vieram instalar-se em Cachoeira. Como era de praxe, precisavam apresentar seus diplomas, ou títulos, como então eram chamados, para serem autorizados a trabalhar. Juntaram-se a Gaspar Francisco Gonçalves, que era cirurgião-mor autorizado por D. João VI, o licenciado José Francisco Alves Malveiro, especializado em sangria e com título também concedido por D. João, e o boticário Joaquim dos Santos Falcão, que apresentou à Câmara titulação na arte da farmácia concedida por D. Pedro em 1825.

As principais autoridades da vila e responsáveis pela administração municipal eram os vereadores. O presidente, José Pereira da Silva, no posto por ser o mais velho, dividia as responsabilidades com Tristão da Cunha e Souza, Manoel Álvares dos Santos Pessoa, Antônio Vicente da Fontoura, Joaquim Gomes Pereira, Joaquim Corrêa de Oliveira e Antônio Joaquim Barbosa, este também juiz ordinário. Os vereadores suplentes eram José Rodrigues de Moraes, Noé Antônio Ramos, João Antônio Galvão, Lucas José Duarte, Francisco de Barros Lima e Jacinto Lopes Falcão. José Pereira Fortes era outro juiz ordinário e Antônio Xavier da Silva, juiz de órfãos. Felisberto Machado de Carvalho Ourique era juiz municipal, Luiz Rodrigues de Castro e Silva e Manoel da Silva Ferraz eram promotores públicos, havendo ainda os inspetores de quarteirão, dentre os quais Joaquim Francisco Ilha e Antônio dos Santos Falcão.


Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

Em abril, no dia 22, foi instalado o primeiro júri, depois do desembaraço de problemas, dentre os quais o fato do juiz de direito residir em Rio Pardo, sede da comarca. Naqueles primeiros tempos, as disputas pelas funções da justiça eram bastante acirradas; portugueses e brasileiros, os primeiros ainda em grande número, digladiavam-se pela obtenção das nomeações para tais funções.

Senhores da política, os portugueses ou caramurus, do Partido Português, vinham dominando a vila desde 1831 e tinham nas figuras de Manoel Álvares dos Santos Pessoa e Francisco José da Silva Moura grande influência. Noé Antônio Ramos, Gaspar Francisco Gonçalves, Antônio Vicente da Fontoura e José Gomes Portinho despontavam como lideranças de oposição aos portugueses, agitando o cenário político da vila. E como nada é fruto do acaso, as disputas entre os portugueses, conservadores, e os brasileiros natos, liberais, indicavam o rumo que as coisas estavam tomando.

Em 13 de maio, numa sessão da Câmara, o vereador Joaquim Gomes Pereira comunicou ter ficado sabendo que estavam acontecendo reuniões em algumas casas para tratarem de assuntos de revoluções, para o que sugeriu alerta e atenção. 

Assinatura de Joaquim Gomes Pereira - Acervo documental Arquivo Histórico

A partir da instalação do júri, haviam sido presas 211 pessoas pelos crimes de morte, ferimentos e roubos, principalmente. Do total, a maior parte era da própria vila, sendo os demais infratores trazidos das capelas filiais ou distritos, dentre eles Santa Maria e Livramento. Os crimes cometidos incluíam também arrombamentos à cadeia, então uma casa alugada. Em maio, a Câmara lançou edital para construção da cadeia, conclamando “toda a pessoa a quem convenha deitar a pedra no lugar destinado para a cadeia haja de comparecer em sessões da Câmara nos dias 26 e 27 do corrente para se tratar do ajuste”. A obra não chegou a ser realizada e a cadeia “própria” só se concretizou com a conclusão da Casa de Câmara, Júri e Cadeia em 1864.

A Guarda Nacional, força militar composta por cidadãos, tinha um contingente de 194 homens, sendo 167 de serviço ordinário e 27 da reserva no 1º distrito da vila. No 2º distrito havia 87. Os esquadrões da Guarda Nacional tinham ordem de se organizar e, às vésperas da eclosão da revolução farroupilha, a sua reunião foi dificultada pelos rios caudalosos, o que foi certamente ocasionado pelas chuvas que são comuns no mês de setembro. Um desses esquadrões, de cavalaria, foi formado em junho de 1835, reunindo cidadãos residentes entre Jacuí, Botucaraí e Serra Geral, sob o comando de Antônio Vicente da Fontoura.

Questões envolvendo a escolha dos juízes de paz dos distritos e dificuldades para reunir guardas nacionais ou mesmo formar esquadrões começavam a preocupar as autoridades. As alegações eram de toda ordem e denotavam a cautela com o clima belicoso já então pressentido.

O 20 de setembro não produziu registro na documentação da Câmara, mas no dia seguinte, 21, um ofício do juiz de paz José Gomes Porto participava aos vereadores que havia fixado edital de convocação de voluntários para sentarem praça no corpo de polícia, mas que não aparecera nenhum candidato no prazo marcado de trinta dias. Era evidente o temor do povo. Os próprios vereadores começaram a apresentar justificativas para suas ausências às sessões. Calos, hemorroidas, pisaduras e toda sorte de problemas eram alegados para as faltas... O vereador Manoel Álvares dos Santos Pessoa, depois de ter se envolvido em uma questão em que fora alvejado no pé, comunicou a Câmara, em 13 de outubro de 1835, que estava de mudança para Porto Alegre.

Assinatura de Manoel Álvares dos Santos Pessoa - Acervo documental Arquivo Histórico

A vila envolveu-se de fato com o conflito no dia 23 de setembro, quando o juiz de paz Gaspar Francisco Gonçalves soube que em Rio Pardo um grupo contrário à causa liberal estava se negando a aceitar a autoridade do Dr. Marciano Pereira Ribeiro como presidente da província.  Em 26 de setembro Gaspar, juntamente com Antônio Vicente da Fontoura, comandante de um esquadrão e companhia da Guarda Nacional, acompanhados por Manduca Carvalho, dirigiu-se à cidade vizinha para socorrer os revolucionários, fazendo Rio Pardo aderir aos farroupilhas.

Assinatura de Gaspar Francisco Gonçalves
- Acervo documental Arquivo Histórico

No dia 24 de setembro, a Câmara divulgou um edital conclamando o povo a manter a tranquilidade e o respeito às autoridades constituídas. 

Entre celebrações religiosas, ataques ora de liberais, ora de legalistas, destruição de registros documentais da Câmara e fuga de autoridades, Cachoeira adentrou no decênio.

Finda a revolução farroupilha, ficaram adormecidos os ódios cultivados naqueles tempos – e antes mesmo deles – para desabrocharem novamente num frio dia do início de setembro de 1860, quando os conservadores Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Felisberto Machado de Carvalho Ourique mandaram justiçar os liberais, perecendo Antônio Vicente da Fontoura depois do atentado sofrido na Igreja Matriz. O passado seguia muito presente...

Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal