Espaços urbanos

Espaços urbanos
Centro Histórico - Foto Eduardo Schroeder

domingo, 26 de novembro de 2017

Série Empreendedores do Passado: Otto Mernak

A Série Empreendedores do Passado inaugura com o alemão Otto Mernak, natural de Chemnitz, na Saxônia, e que chegou em 1903 ao Rio Grande do Sul, fixando-se em São Leopoldo. Em 1912 veio para Cachoeira, onde abriu oficina mecânica e fundição em um galpão defronte à Estação Ferroviária.


Otto Mernak com a esposa Maria e os filhos Curt, Ernesto e Rosinha

A oficina de Otto foi convenientemente instalada na região que no início do século XX podia ser considerada a zona industrial da cidade, que era justamente a que rodeava a Estação. Seu negócio não ficou isolado, mas em posição estratégica que lhe permitia o convívio com engenhos de arroz e outros empreendimentos que se serviam da ferrovia para recebimento e escoamento de mercadorias. E poderiam lhe oferecer muitos serviços... 

Estação Ferroviária cercada pelos engenhos de arroz - fototeca Museu Municipal

Com trabalho constante e esforçado, tornou-se um dos mais bem sucedidos industriais de Cachoeira e a empresa fundada por ele, a Mernak S.A., chegou a ser a maior fabricante de locomóveis e caldeiras da América do Sul, abastecendo o mercado interno e externo.

Locomóvel em fotografia de janeiro de 1952 - Acervo Família Mernak

Uma matéria publicada no jornal O Commercio, de 25 de junho de 1919, dá a dimensão do quanto “o operoso industrialista Otto Mernak” estava fazendo história em seu ofício:

"A convite do operoso industrialista, Sr. Otto Mernak, fomos (…) apreciar o trabalho de fundição de ferro na bem montada oficina estabelecida nas imediações da estação ferroviária.

Cartão da Oficina Mecânica e Fundição de Otto Mernak
- Acervo Família Mernak

O Sr. Otto Mernak aqui chegou em setembro de 1912, começando uma oficina mecânica e de fundição, em proporções modestas, que era localizada num armazém de tábuas.
        
Ultimamente, porém, a casa tornou-se insuficiente para conter ampliações que a crescente afluência de trabalho estava a exigir, e o Sr. Mernak tomou e executou a resolução de construir um prédio de material, de 35 metros de comprimento por 10,60 de largura, no qual funcionam, há pouco mais de um mês, as novas e aumentadas oficinas.

Oficinas de Otto Mernak (1922)
- Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

- Podemos fazer tudo o que concerne ao ramo, disse-nos o Sr. Mernak – e, se não fora a escassez atual do ferro em lâminas, até locomotivas para a Viação Férrea poderíamos construir.

Vimos bombas para empresas arrozeiras e peças avulsas para as mesmas (curvas, etc.) prontificadas na fundição, peças novas para motores e, no galpão, trilhadeiras e locomóveis compostas e a compor.

Interior da oficina mecânica e fundição - Arquivo Família Mernak

22 operários exercem ali a sua atividade, sob a direção dos Srs. Otto Mernak e Leopoldo Dill, sendo que este último entrou recentemente a fazer parte da direção e é interessado na indústria, como sócio.

Uma locomóvel de oito cavalos trabalha durante o dia inteiro, fornecendo força motriz às máquinas e acionando também um dínamo que fornece luz elétrica ao estabelecimento.

Dentro da oficina existe um compartimento especial para a confecção de modelos de madeira destinados aos trabalhos de fundição, no qual trabalham, ininterruptamente, dois hábeis marceneiros.

O prédio, não obstante sua amplitude, é construído de modo a poder facilmente sofrer algumas ampliações, se o futuro torná-las necessárias.

A fundição atual é, decerto, um belo resultado do esforço do Sr. Otto Mernak, um trabalhador de rija têmpera e que há de olhar com íntima satisfação para a sua obra."

A matéria do jornal demonstra a pujança do negócio de Otto Mernak, especialmente em tempos recém-saídos da I Grande Guerra, fator indiscutível de inibição dos empreendimentos.

Vencida a Primeira Grande Guerra, Mernak continuou a expansão da sua indústria até que a morte o colheu em uma viagem de passeio à Alemanha no dia 23 de junho de 1935. O vínculo estabelecido com Cachoeira não se dissipou com a morte. Tempos depois os seus despojos foram trazidos para a cidade que o acolheu e repousam no Cemitério Municipal em imponente túmulo.

Cemitério Municipal - 1955 - Acervo Família Mernak

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

João Neves da Fontoura - 16/11/1887 - 16/11/2017 - 130 anos

“Na minha terra sempre houve, outrora, duas armas irresistíveis – a eloquência e o cavalo."
                                                                                                                      João Neves da Fontoura


João Neves da Fontoura - 1933
- Coleção Saul Rosa Garcia

Esta frase define os dois tipos de homens do Rio Grande. João Neves da Fontoura, nascido em Cachoeira a 16 de novembro de 1887, entre as duas armas irresistíveis, escolheu para a sua vida a da eloquência.

O pai, Coronel Isidoro Neves da Fontoura, era a maior liderança política de Cachoeira no final do século XIX, início do século XX. Ao contrário do filho, Isidoro era homem de poucas palavras, muita ação – e imposição. João Neves parece ter incorporado as características de mando do pai, especializando-se na eloquência.

Borges de Medeiros e o Cel. Isidoro Neves
- Fototeca Museu Municipal

Muito jovem, pelas páginas do jornal republicano Rio Grande, começou a exercitar o dom da escrita. Até Cândida Fortes Brandão, sua professora por pouco tempo na formação inicial, foi vítima de suas ferinas palavras, que se defendia atacando-o em artigos no O Commercio.

A eloquência, a formação acadêmica e os conselhos de Borges de Medeiros fizeram-no crescer na política, onde galgou importantes postos, e na literatura, com a conquista de cadeiras na Academia Rio-Grandense e Brasileira de Letras.

Com o fardão da Academia Brasileira de Letras
- Fototeca Museu Municipal

Cachoeira deve muito ao filho ilustre, empreendedor de uma verdadeira transformação urbana. São obras de sua administração altos investimentos em saneamento, o que na década de 1920 era um salto para o futuro, e no embelezamento da cidade.


João Neves no discurso de inauguração da Praça Borges de Medeiros - 1927
- Fototeca Museu Municipal

As palavras de Barbosa Lima Sobrinho, advogado, ensaísta, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, sintetizam o perfil do grande João Neves da Fontoura:

“Tudo em João Neves era ação. Sua oratória, desprezando artifícios e babados, era, antes de tudo, ação política, como o seu jornalismo, os seus livros, como as suas dissertações de memorialista.”

O velho Coronel Isidoro deixou no filho a sua marca. E João Neves soube aperfeiçoar a herança paterna com a sua capacidade de articulação. Ambos entraram para a história, e como convêm ao mestre e ao pupilo, o filho suplantou o pai.

domingo, 12 de novembro de 2017

Um Comitê Sírio-Libanês em Cachoeira

A partir do início do século XX, pela existência do jornal O Commercio, é possível verificar a presença crescente de estrangeiros oriundos do chamado Oriente Médio, genérica e equivocadamente tratados aqui por “turcos”*.

Dentre esses imigrantes, muitos deles dedicados ao ofício de mascates, ou seja, vendedores ambulantes de todo tipo de mercadorias, há o registro de muitas famílias que se estabeleceram principalmente na Rua 15 de Novembro e imediações.

Uma notícia do O Commercio de 28 de janeiro de 1920 refere a eleição da nova diretoria do Comitê Sírio-Libanês, dando mostras que a comunidade já então grande, começava a se organizar em associação. Diz a notícia:

No dia 25 de janeiro, às 4 horas da tarde, esta sociedade local efetuou, no salão da Associação Comercial, uma sessão ordinária a fim de eleger a nova diretoria que deverá reger os seus destinos durante o corrente ano. A nova diretoria ficou assim constituída: presidente honorário Dr. Balthazar de Bem, reeleito; presidente Haguel Botomé, reeleito; vice-presidente Badi Ache, reeleito; 1.º secretário Nagib Mahfuz, reeleito; 2.º secretário Antonio Marin, 1.º tesoureiro João Moyses, reeleito; 2.º tesoureiro Calil Elias, reeleito. Conselho deliberativo: Elias de Mettri Fares Mogarbel e Antonio Aude; comissão: Elias Raful, Leonel Elias e Antonio Siade; porta-estandarte Bechara Amin; tradutor Felicio Forzen (juramentado). Conhecido o resultado, a nova diretoria foi saudada com uma entusiástica salva de palmas.

Haguel Botomé e sua família - Grande Álbum de Cachoeira
- de Benjamin Camozato (1922)

Restabelecido o silêncio, usou da palavra o Sr. Presidente, produzindo ponderado discurso, que durou 20 minutos e do qual damos um pálido resumo.

Começou o orador agradecendo aos seus compatriotas pela elevada prova de confiança que lhe davam, reelegendo-o para o cargo de presidente pois, em razão de seus muitos afazeres, desejava ser um sócio infatigável, mas não presidente. (...) Fez um rápido histórico da associação até esta data. Disse mais que alguns dos sócios pediram, na última sessão, fosse mudado o nome de Comitê Patriótico para o de Beneficência, que em nada influía o nome, pois por ventura não tinham contribuído todos os membros, tanto social como particularmente, tanto quanto lhes era possível para minorar os sofrimentos dos desprotegidos da sorte, tanto de sócios, como de outros desventurados, que o não são? Acrescentou que deviam os sócios, na próxima sessão, atender à discussão do requerimento enviado pelo sócio Bechara Amin a fim de nomear um médico, uma farmácia e um advogado para a sociedade. 

Terminou o orador pedindo a todos darem um viva à gloriosa, culta e grande nação brasileira, viva que foi entusiasticamente correspondido.
Cachoeira, 28 de janeiro de 1920.
F.

A diretoria do comitê era composta por nomes que fizeram história no comércio, caso do presidente Haguel Botomé, libanês que era o proprietário da Casa da Bandeira Branca, na Rua 15 de Novembro; Badi (ou Bady) Ache, dono da casa comercial A Montevideana, na Rua 7 de Setembro, logo depois vendida para Haguel Botomé; e Calil Elias, sírio, dono da loja O Barco, de fazendas, miudezas, secos, molhados e gêneros coloniais, no Alto dos Loretos, e depois instalada na Rua Saldanha Marinho lá por 1918.

Anúncio da Casa da Bandeira Branca
n'O Commercio, 1/2/1928

No ano anterior, O Commercio, além de constatar que o comitê reunia todos os elementos de valor da colônia, havia se incorporado à vida social da cidade, comungando das festas cívicas, sendo por isso amparado com simpatia pelo povo cachoeirense.

Os sírio-libaneses, assim como outros imigrantes vindos antes e depois, enriqueceram ainda mais o rico mosaico étnico que caracteriza a história de Cachoeira do Sul.

*Turcos: eram assim denominados todos os imigrantes que portavam documentos emitidos pelo Império Turco-Otomano ao chegarem no Brasil.