Espaços urbanos

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As torres da Santo Antônio - Mário Henrique Kämpf

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O octogenário Cine-Teatro Coliseu

Muitos querem que ele sucumba, desapareça com seu aspecto de abandono e dê lugar a qualquer coisa sem história, sem forma, sem graça. Outros lutam para manter a sua memória, dando valor à fachada art-decó que foi a sensação da cidade a partir daquele 17 de fevereiro de 1938, quando suas portas se abriram para que o público embevecido assistisse ao filme inaugural São Francisco - a cidade do pecado.

Inauguração do Cine-Teatro Coliseu - 17/2/1938
O prefeito Reinaldo Roesch descerrando a fita inaugural do Cine-Teatro Coliseu
- Fototeca Museu Municipal
Letreiro - Foto Renato F. Thomsen

80 anos se passaram desde aquele dia. Muitas glórias o Cine-Teatro Coliseu viveu e muitos papéis desempenhou na vida de Cachoeira, excedendo o de simples casa de exibições cinematográficas para ser palco de peças teatrais, de conferências, audições musicais, de formaturas e discursos políticos. Sem contar o quanto povoa o imaginário das gerações que tiveram oportunidade de disputar suas poltronas nas sucessivas sessões ofertadas.

Hoje a discussão paira sobre o pouco que sobrou de sua estrutura magnífica e os incômodos advindos de uma edificação abandonada, o que representa simplificação da sua importância e minimização do valor de sua presença na paisagem urbana.

Fachada art-decó - Foto Renato F. Thomsen

Neste fevereiro de 2018, quando o Cine-Teatro Coliseu atingiu seus 80 anos de inauguração, vale ressaltar que este outrora luxuoso palco de espetáculos poderá ter vários e diversos usos, já tendo sido tema de trabalhos acadêmicos de arquitetura que sonharam para ele dignidade e inserção na vida da comunidade. 

O velho cinema espera pela redenção de sua existência e se hoje ostenta triste figura, certamente é porque os responsáveis por sua estrutura só o tiveram em conta quando por suas bilheterias soavam moedas em profusão, pagamento justo daqueles que buscavam no seu escuro salão as lindas luzes da ribalta.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Das pipas às torneiras

No verão, quando o calor nos assola, lembramos o quanto abrir uma torneira é bom! Este simples e corriqueiro ato, quase automático, desperta nada além da instantânea sensação de vermos escorrer a água para atendimento da necessidade premente...

Mas há 100 anos este conforto era sequer cogitado. A água chegava às casas através de poços abertos nos pátios das casas que contavam com algum veio d’água e para os demais através do serviço dos pipeiros, aguadeiros, ou vendedores de água.

Aguadeiro em Porto Alegre - ronaldofotografia.blogspot.com.br

Esse serviço tinha seu preço – e seus inconvenientes. O consumidor precisava ter claro o quanto necessitaria do precioso líquido para não ser pego de surpresa e ficar sem o suficiente para o consumo; precisava também de vasilhas para acondicioná-lo. Talvez venha daí o hábito das casas terem talhas de barro com tampas, que havia de vários tamanhos. Aos que tinham poços a tarefa era de encher todas as talhas da casa ao anoitecer. Aos que dependiam do pipeiro, necessário era ter o dinheiro disponível para mais um pedido.

Talhas - poesiadomeujeito.blogspot.com.br

Logicamente que água estocada era artigo de luxo. E seu uso precisava ser comedido. Banhos não podiam ser tomados a toda hora; célebres são as memórias dos mais antigos que contam que os banhos “gerais”, ou seja, do corpo todo e cabeça, só às quartas e sábados – para os mais esbanjadores. Normalmente o dono da casa, ao chegar do trabalho, lavava os pés, para os quais havia até toalha especial, em tamanho intermediário entre a toalha de rosto – que normalmente ficava junto ao jarro e à bacia no quarto – e a de banho. Estas toalhas eram de linho ou algodão; sendo que as famílias mais abastadas costumavam adorná-las com bordados e franjas – tarefa das moças casadoiras.

Mas voltemos ao serviço dos pipeiros. Em 26 de dezembro de 1917, o jornal O Commercio publicou uma reclamação geral de abuso dos pipeiros:

Quinta-feira última foi preso correcionalmente o preto Horacio dos Santos, prisão feita à ordem do Sr. João Antonio da Motta, atualmente no exercício do cargo de subintendente, por ter encontrado o referido pipeiro em flagrante delito de negar água a consumidores que a pediam e de ter exigido preço exagerado em uma casa que resolveu atender.
Há longos anos, todos os verões, a nossa população é submetida ao suplício de pedir água por favor e de aturar as impertinências da maioria dos pipeiros, que negam-se a fornecer água a quem não é freguês.
Acontecesse o fato do fornecedor não aparecer um ou dois dias, porque lhe adoecesse ou fugisse um burro, ficavam os fregueses na falta do precioso líquido, que tinham que sair a pedir na vizinhança, em doses homeopáticas, por não lhe fornecerem os outros pipeiros.
Presenciado tal abuso, achamos que a autoridade procedeu bem em aplicar-lhe um corretivo.
O Sr. João Motta mandou, em seguida, chamar todos os pipeiros no edifício da subintendência, tomando-lhes os nomes e os números das suas pipas e intimando-os a atenderem a todas as casas que lhes pedirem água.
Sob pena de multa, de prisão correcional e de lhes ser cassada a licença de vender água, na reincidência, todos os pipeiros são obrigados a dar de 1 a 4 barris em cada casa que exigir o líquido, podendo pedir 100 réis por barril, em vez de 50.

Além da medida de contenção do abuso, a notícia permite que se tenha ideia de onde a água era recolhida, sendo principalmente em fontes – de que a cidade era pródiga.

E segue o que O Commercio registrou:

Embora tenha havido seca, que diminuiu as águas da Fonte do Mato e da fonte do Sr. Antonio Ribeiro*, ainda temos vários mananciais d’água a leste da cidade, a rumo do arroio Amorim, que podem ser explorados.
Ultimamente, muitos pipeiros tiram água de duas fontes existentes na chácara do nosso amigo Virgilio de Abreu, situada a oeste da cidade e arrendada ao Sr. José Daniel de Magalhães.
Já se vê que não é por absoluta falta d’água que os pipeiros deixam de atender à população e sim por falta de boa vontade, aliás manifestada em verões anteriores, em que tem havido maior abundância do indispensável líquido.
Quem pedir água e não for atendido, tem, pois, o recurso de tomar o número da pipa e denunciar o condutor à autoridade administrativa, que está animada do melhor empenho de acabar com semelhante abuso, impróprio de existir numa cidade populosa e adiantada, como a nossa.

Virgílio de Abreu e família - Acervo familiar

Depois desta história, certamente pensaremos o quanto o gesto simplório de abrir uma torneira nos facilita a vida, mas também nos leva ao desperdício do cada vez mais precioso líquido!

*Antônio Ribeiro: português que fez fortuna com a venda de água em Cachoeira.